Eu e Meu Avô Nihonjin fala pela geração de netos de imigrantes japoneses no Brasil. Inspirado no livro “Nihonjin”, de Oscar Nakasato, o filme expressa a percepção verdadeira de quem viveu as experiências levadas para a tela. Seu enredo serve de meio para contar como aconteceu a vinda de japoneses para o Brasil nas primeiras décadas do século 20, e o que eles enfrentaram por aqui. O gatilho narrativo é simples: o menino Noboru pede ao seu avô, o seu ojitian, que conte a sua história para fazer um trabalho da escola.
O filme, de Celia Catunda, começa com uma introdução, que se passa em 1920, no porto de Kobe, quando o avô embarca para o Brasil. Antes disso, a primeira imagem, de pássaros sobrevoando o mar, indica que Catunda adota, acertadamente, traços de desenhos menos infantis, afastando-se, assim, de seus trabalhos anteriores como Peixonauta e O Show da Luna!. Além disso, incorpora influências de outros artistas, como fez com Tarsila do Amaral em Tarsilinha. Neste caso, as belas pinturas do artista Oscar Oiwa servem de base para os cenários, principalmente na primeira parte do longa.
A ação principal acontece nos anos 1980, nas conversas entre Noboru e seu ojitian. A escolha de Pietro Takeda e do veterano Ken Kaneco para colocarem as vozes se prova essencial para dar autenticidade aos relatos. O jeito de falar deles soa muito verdadeiro. Imagine o desastre que seria se tivessem optado por atores sem sangue nipônico para imitar os sotaques dos personagens.
Flashbacks marcantes
A dinâmica da intercalação entre a conversa no presente e os flashbacks funcionam bem. Os eventos do passado, porém, são bem mais interessantes do que a rotina de Noboru na escola, que sempre termina com uma brincadeira ingênua (adequada para a idade dessas crianças). Sem dúvida, o valor do filme se concentra nas experiências vividas pelo seu avô. Que, talvez, não sejam novidade para a geração dos sanseis, os descendentes de terceira geração, ou seja, os netos de japoneses. Como espectadores, estes se sentem devidamente representados, aliviados por não assistirem a uma abordagem de fora para dentro. Já os outros públicos, os descendentes de gerações posteriores ou não descendentes, descobrem importante história que faz parte da construção da sociedade brasileira.
Assim, o avô relata como foi duramente recebido pelo capataz da fazenda onde trabalhou num esquema próximo da mão-de-obra escrava, que inclusive vitimou os imigrantes mais frágeis. As histórias do ojitian evidenciam, também, o elo que surgiu com os italianos, que enfrentaram situações semelhantes, inclusive a condição quase de criminosos durante a Segunda Guerra Mundial. O conflito dentro da comunidade japonesa, por conta da polarização sobre a derrota ou vitória do Japão na guerra – tema central do filme Corações Sujos (2011), de Vicente Amorim – também faz parte da trama como gatilho de uma situação dramática na vida da família de Noboru. Por conta disso, o filho mais novo, Haru, tomou outros rumos. Desde criança, Haru revelara seu lado inconformista, inclusive brigando na escola quando era chamado de japonês ou “japa”, incômodo que sentia também Noboru, e todos aqueles da sua geração – um dos motivos que provam que esta obra dá voz a essas pessoas.
Soluções criativas
Muitos dos flashbacks surgem através de uma transição criativa. Por exemplo, ondas do mar invadem a cozinha onde conversam Noboru e o avô. A morte da primeira esposa também acontece com um toque diferenciado, poético e leve. Em outro momento, Celia Catunda parece acenar para Akira Kurosawa, ao repetir a anedota da força das varas quando reunidas, presente no filme Ran (1985).
A linha narrativa central, sobre o tio que se separa da família, porém, soa frágil, sem a necessária ênfase dramática, tanto na origem como na sua conclusão. Enfraquece o filme, mas Eu e Meu Avô Nihonjin se sustenta pelos relatos da vida do ojitian, emocionantes por si só e aqui relatados com autêntica veracidade.
___________________________________________
Ficha técnica:
Eu e Meu Avô Nihonjin | 2025 | 84 min. | Brasil | Direção: Celia Catunda | Roteiro: Rita Catunda | Elenco (vozes): Ken Kaneko, Pietro Takeda.
Distribuição: H2O Filmes.



