Frankenstein, de Guillermo del Toro, nasceu com o mais puro DNA gótico. O diretor mexicano explicitamente assumiu essa influência desde o início de sua carreira. A obra de Mary Shelley, por sua vez, é um dos clássicos incontornáveis da literatura gótica. De quebra, o elenco ainda traz Mia Goth, que faz parte desse universo não só pelo seu sobrenome, mas por sua filmografia concentrada no terror.
Produzido pela Netflix, o filme contou com orçamento generoso, estimado em 120 milhões de dólares. O investimento se justifica nas grandiosas cenas, como a de abertura, que se passa em 1857, com um enorme navio encalhado nas geleiras do Pólo Norte. E, principalmente, no impressionante laboratório de Victor Frankenstein (Oscar Isaac), instalado numa enorme torre de uma usina de água desativada. Toda a reconstituição de época, aliás, apresenta um luxo irretocável.
Os relatos
A abertura no gelo já traz a criatura de Frankenstein perseguindo Victor Frankenstein. A cena em que eles se confrontam permite que a narrativa se estruture em duas perspectivas. Primeiro, Victor conta sobre a sua infância, quando seu pai o obrigou, com o uso da violência, a aprender medicina. Assim, cresceu obcecado em se notabilizar por desvendar o dom da vida. Mas, suas experiências com cadáveres revolta seus colegas médicos. Então, financiado por Harlander (Christoph Waltz), ele constrói um laboratório onde se isola para atingir seu objetivo.
Depois de coletar vários corpos de soldados mortos em uma guerra, ele junta os seus membros e órgãos para montar a sua criatura. Em meio a uma tempestade com trágicas consequências, consegue finalmente dar vida ao ser que construiu. Porém, replicando o comportamento de seu pai, Victor trata sua criatura com violência. Prende-o em correntes e exige que ele aprenda a falar mais do que apenas “Victor”. O cientista não compreende por que a sua criatura demonstra mais desenvoltura com Elizabeth (Mia Goth) do que com ele. Cada vez mais enlouquecido e frustrado pela falta de inteligência em sua criatura, ele decide destruir tudo.
A perspectiva da criatura revela a pessoa dentro daquele ser renascido. É ele quem narra esse segmento, provando que, como todos os humanos, ele precisa de tempo para se desenvolver. E relata o que aconteceu com ele após sobreviver (ele tem a capacidade de se regenerar) à explosão provocada por Victor. Entra aí seu encontro com o velho cego, quando percebe que nunca será aceito pelos humanos em geral. Tal maldição fica ainda mais evidente no casamento entre Elizabeth e William (Felix Kammerer), o irmão de Victor. Essas desventuras levam ao trecho do início do filme, que retoma a narrativa a partir desse momento.
Humanização
Repetindo o que fez em A Forma da Água (2017), Guillermo del Toro humaniza o personagem com características não humanas. Para começar, a criatura de Victor Frankenstein só ataca para se defender. Por isso, aqui não há aquele trecho do filme Frankenstein (1931), de James Whale, em que o monstro (Boris Karloff) joga a menina no rio. Há até uma menina no filme de Del Toro, quando aparece o personagem do velho cego, mas ela depois some de cena. Com isso, na versão de Del Toro, fica ainda mais óbvio que o verdadeiro monstro é o dr. Frankenstein e não a sua criatura. É uma intenção até forçada de fazer o público sentir pena da criatura.
Como consequência dessa abordagem, Frankenstein, de Guillermo del Toro, se afasta do terror. Sintomaticamente, junto com o desenvolvimento de sua mente, cada vez mais próxima de uma pessoa comum, a criatura (que nunca ganha um nome no filme), se torna mais sensível. Como Elizabeth percebe, ele tem um coração puro. Visualmente, suas feições marcadas por pontos na pele remendada se amenizam. O filme deixa, assim, escapar a tensão que existia pela presença da criatura que, construída a partir de partes de corpos de cadáveres, parecia imprevisível. Percebem-se, inclusive, as características físicas do galã Jacob Elordi, que o interpreta e não é um grande ator, mas sob a forte maquiagem até então entregava um resultado convincente.
A ópera e o gore
Além de reafirmar seu talento pela construção de cenários incríveis, Guillermo del Toro usa algumas belas transições entre cenas, como aquela que leva para o laboratório junto com o movimento da ação. Num dos momentos mais dramáticos, na festa do casamento, imprime um belo e adequado tom operístico, lembrando Francis Ford Coppola. Se, desta e em outras vezes, como no citado A Forma da Água, ele opta por não assustar o público, mantém o horror no uso do gore. Em seu Frankenstein, o processo de montagem da criatura alcança um realismo chocante, sanguinolento e com detalhes cirúrgicos de revirar o estômago.
Mas, o Frankenstein de Guillermo del Toro se sobressai mesmo pela sua composição visual impecável e digna de todos os recursos permitidos pela opulenta produção. O enredo, porém, pende demais para a fácil mensagem de que o cientista é mais monstruoso do que a criatura feita de pedaços de corpos que ele conseguiu reviver.
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Ficha técnica:
Frankenstein | 2025 | México, EUA | 149 min. | Direção: Guillermo del Toro | Roteiro: Guillermo del Toro | Elenco: Oscar Isaac, Jacob Elordi, Mia Goth, Felix Kammerer, David Bradley, Lars Mikkelsen, Christian Convery, com Charles Dance, Christoph Waltz.
Distribuição: Netflix.



