Gloria!

Poster do filme "Gloria!" (divulgação)

Título original: Gloria!

Direção: Margherita Vicario

Ano de lançamento: 2024

Gênero: ,

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 6/10

A atriz e cantora Margherita Vicario estreia na direção de longas com Gloria!, que homenageia as compositoras mulheres do passado que não tinham espaço para expor o seu talento.

A trama, fictícia, se passa nos arredores de Veneza em 1800, num orfanato e conservatório para moças chamado Instituto Sant’Ignazio. Uma delas é Teresa (Galatéa Bellugi), que não participa das aulas de música por ser muda e menos desenvolvida intelectualmente, conforme afirma o padre Perlina (Paolo Rossi). Mas, na verdade ela não é muda nem tem problemas de deficiência mental. É que o padre a obriga a agir assim para esconder um segredo envolvendo um nobre que ajuda a instituição.

Ao ter acesso a um piano, recebido como doação para as órfãs, mas escondido pelo padre, Teresa descobre seu talento musical nato. Antes disso, seu dom havia despontado ao transformar em sua mente os sons ao redor em música. Algumas órfãs que fazem parte da orquestra da igreja a encontram tocando, e ficam surpresas. Ao contrário das composições rígidas que seguem os cânones da educação musical erudita, Teresa cria árias com muita melodia e harmonias simples, próximas de uma canção popular.

Lucia (Carlotta Gamba), uma das mais talentosas alunas do padre Perlina, desdenha as criações de Teresa. Essa rivalidade dá origem a um belo duelo de estilos entre as duas.

Uma composição para o Papa

A narrativa caminha para um clímax, porque o novo Papa está prestes a visitar a igreja. Como de costume, a orquestra deve apresentar uma composição original para o santo pontífice. Perlina vê a oportunidade de se destacar, no entanto, não consegue compor uma peça. Tenta até comprar uma composição, mas não encontra nada. A solução seria apresentar a obra escrita por Lucia, que as órfãs tocam e parece belíssima. A relutância do padre evidencia a proposta do filme, a de que as mulheres compositoras eram desprezadas e não tinham espaço para mostrar o seu talento. A conclusão, centrada na apresentação da composição de Lucia para o Papa, descamba para uma rebeldia maluca.

O filme Gloria possui uma reconstituição de época autêntica. Filmado em locações, se esmera na fotografia, de Gianluca Palma, que lembra pinturas daquele período. As músicas, contudo, captam toda a atenção. Mas, ainda mais considerando que a diretora Margherita Vicario é do ramo, tendo lançado seu primeiro CD em 2014 (“Minimal Musical”), para a narrativa as composições (dela e de Davide Pavanello) falham. O contraste entre erudito e popular, essencial para o enredo, foge do julgamento de valor, quando a história pede que os dois sejam, pelo menos, igualmente bons. Parece haver um receio de retratar qualquer música como ruim. Por exemplo, a tentativa de compor de Perlina deveria evidenciar um fracasso, mas isso não acontece.

Um clímax desastroso

No entanto, o mais grave é o clímax. A rebeldia maluca caberia na trama se as órfãs apresentassem ao Papa, sem a aprovação prévia de Perlina, uma bela canção popular. Ou, alternativamente, poderiam tocar uma esplendorosa peça composta por Lucia, atestando a proposta original de talentos femininos que nunca foram devidamente reconhecidos. Mas, a conclusão do filme se perde com uma caótica performance de uma composição que não tem nenhuma relação com o que Teresa, Lucia ou qualquer órfã do instituto tocaram durante o restante do longa.

Esse ponto alto dramático se preocupa em simbolizar uma liberação das amarras clássicas impostas pelo Papa, e pelo topo da hierarquia social, mas se desconecta do restante da história. Por apresentar uma música diferente, ignora o tema do desprezo pelas mulheres compositoras e também a rivalidade entre música erudita e popular. Para piorar, essa música nem parece que está sendo produzida ali na igreja pelas órfãs, pois dá a impressão nítida de ser um playback.

Outras fraquezas

Além disso, Gloria! insinua uma relação homossexual do padre com um homem mais jovem, mas não tem coragem de ir a fundo nessa questão. Esse personagem do rapaz, aliás, é mal construído. Está atormentado por se sentir atraído por um padre e também por estar endividado, porém tudo isso fica na superficialidade. Outro problema que não passa desapercebido é a falta de voz da atriz Galatéa Bellugi. Pode ser uma opção da diretora, pois a protagonista tem talento para compor, não necessariamente para cantar, mas essa escolha causa desconforto porque o público quer ouvir uma canção bem executada num filme musical.

Por fim, além do clímax desastroso, ainda entra um epílogo que é um lugar comum desnecessário, pois trata de revelar o que acontece com as órfãs no futuro. Se pelo menos trouxesse alguma surpresa ou um toque de humor ou sentimentalismo, poderia ter uma justificativa. Como está, apenas joga a pá de cal nessa parte derradeira que estraga o bom filme que era Gloria! até então.

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Ficha técnica:

Gloria! | 2024 | 106 min. | Itália, Suíça | Direção: Margherita Vicario | Roteiro: Margherita Vicario, Anita Rivaroli | Elenco: Galatea Bellugi, Carlotta Gamba, Veronica Lucchesi, Maria Vittoria Dallasta, Sara Mafodda, Paolo Rossi.

O filme Gloria! está na programação da 12ª edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano.

Onde assistir:
Galatea Bellugi em "Gloria!" (divulgação)
Galatea Bellugi em "Gloria!" (divulgação)

Outras críticas:

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