Honey, Não é o segundo da trilogia de filmes B lésbicos de Ethan Coen. Como no anterior Garotas em Fuga (Drive-Away Dolls, 2024), o diretor se mantém no rumo da comédia frenética que fazia com seu irmão Joel no começo da carreira da dupla. A diferença, em sua jornada solo, é a presença do sexo como elemento de ousadia, tendo como protagonista, de novo, Margaret Qualley, que tem optado por papéis com alto teor erótico.
No novo filme, Qualley interpreta uma investigadora particular chamada Honey O’Donahue, em Bakersfield, Califórnia. Seu apetite para transar casualmente com várias mulheres se equipara ao de Jamie, a personagem que interpretou em Garotas em Fuga. A pedido do detetive Marty Metakawich (Charlie Day), ela investiga um acidente automobilístico que resultou numa morte. Honey se encontraria com a vítima naquele dia.
O que acontece na trama não se restringe ao ponto de vista de Honey. Portanto, o espectador conhece informações que a protagonista ignora. Como o ultrajante reverendo Drew Devlin (Chris Evans), um tarado que transa com várias congregantes da sua igreja picareta. Além disso, ele está envolvido em tráfico de drogas e assassinatos.
Film noir
Subtramas envolvendo uma quantidade exagerada de personagens dificultam desnecessariamente o acompanhamento do enredo. O próprio filme se perde e, a partir de certo momento, o que passa a mover a protagonista já não é a solução do mistério sobre a morte da vítima do carro que capotou. O tórrido relacionamento que Honey inicia com a policial MG Falcone (Aubrey Plaza) desvia a sua atenção (e a do espectador), até que o foco se vira para o desaparecimento da sua sobrinha Corinne (Talia Ryder).
É claro que todas essas situações estarão conectadas. Mas, a grande revelação não impacta tanto. E, nesse jogo com múltiplas peças, alguns personagens encerram sua participação de uma forma abrupta, quase forçada, só para não sumir sem explicações.
Escrita por Ethan Coen com a habitual parceira Tricia Cooke, essa trama tenta emular o film noir – e o rosto queimado com um bule é uma clara referência ao que acontece com a personagem de Gloria Grahame em Os Corruptos (The Big Heat, 1953), de Fritz Lang. Talvez, por isso, não se importa de ser confusa. Aliás, inova o gênero no detalhe de a femme fatale seduzir uma mulher.
A direção de Coen, porém, não busca o estilismo noir. Não há sombras de janelas venezianas, nem enquadramentos inclinados, nem escadas. A fotografia, pelo contrário, traz uma iluminação clara. Por outro lado, o cineasta mantém um pouco daquele maneirismo impactante dos primeiros filmes que fez com seu irmão. Assim, faz alguns malabarismos com a câmera (logo no início, um plano invertido revela a visão de uma personagem se banhando nua num rio), e algumas das mortes são bem estilizadas, num filme com violência acentuada. É um Ethan Coen mais contido, porém mais virtuoso do que em Garotas em Fuga.
Sensualidade
Desta vez, o humor sombrio dá lugar para o mistério da investigação. A comédia se resume ao caricato personagem do reverendo, numa crítica nada elaborada aos religiosos enganadores, e à afirmação da protagonista como lésbica diante dos muitos avanços dos homens. “I like girls!”, repete ela nessas ocasiões. E, no quesito sexo, Ethan Coen alcança aqui o que apenas rascunhou em seu filme anterior. Mais do que nudez, Honey, Não apresenta cenas muito sensuais entre Margaret Qualley e Aubrey Plaza, efeito que as duas promoveram bastante em eventos públicos. O encontro das duas num bar é envolvente só pelas trocas de olhares e pelas expressões.
Honey, Não mostra uma evolução de Ethan Coen como diretor solo num cinema que olha para a filmografia do passado com seu irmão Joel, porém com uma pegada maior de ousadia sexual. O tempo dirá se essa tendência só vale para a trilogia de filmes B lésbicos.
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Ficha técnica:
Honey Não! | Honey, Don’t! | 2025 | 89 min. | Reino Unido, EUA | Direção: Ethan Coen | Roteiro: Ethan Coen, Tricia Cooke | Elenco: Margaret Qualley, Aubrey Plaza, Chris Evans, Lera Abova, Jacnier, Gabby Beans, Talia Ryder.
Distribuição: Universal Pictures.



