Hope: O Primeiro Impacto, do diretor coreano Na Hong-jin, desvirtua as fórmulas de gênero com resultados bons e ruins. O longa mistura ficção científica com filme de monstro, seguindo os passos de O Hospedeiro (2006), de Bong Joon-ho, mas de um jeito bem peculiar.
A produção não tem pressa em desenvolver sua narrativa, estendendo-se por uma longa duração de 2 horas e 40 minutos. A primeira parte leva cerca de uma hora apenas para estabelecer o fenômeno estranho que atinge a remota Porto Hope. O delegado de polícia Beom Seok investiga um boi que aparece morto em uma plantação, exibindo marcas incomuns de cortes pelo corpo. Cercado por moradores locais, eles passam a conjecturar sobre a causa da morte, enquanto o cadáver permanece em evidência na tela. O ritmo vagaroso e o clima de estranhamento remetem à cena do corpo no posto de gasolina em O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho. [1, 2]
Gradativamente, o tom se torna mais sombrio. Um braço humano é encontrado pendurado em uma árvore. O delegado Seok chega a uma parte isolada da cidade, totalmente destruída e abandonada. O mistério por trás do caos demora muito para ser desvendado. Fica evidente que a autoridade policial não sabe o que fazer. Em vários momentos ele parece inútil, enquanto os próprios civis lidam melhor com a crise. Embora essa retenção prolongada da aparência do monstro ajude a criar tensão, algumas cenas arrastadas derrapam e não saem do lugar.
A revelação das criaturas
A espera, enfim, vale a pena, pois a criatura quebra as expectativas. Desenvolvida com competência por meio de computação gráfica, ela não é totalmente original — lembrando o Eddie, mascote do Iron Maiden —, mas exibe uma inesperada forma bípede ao andar ereta, embora corra em altíssima velocidade usando as quatro patas.
Como o delegado Seok não tem competência para enfrentar a ameaça sozinho, a jovem policial Sung Ae entra em cena e incrementa a ação. Exímia ao volante e precisa nos tiros, ela encara a criatura e a derrota em uma perseguição emocionante.
A partir daí, a narrativa se divide em várias frentes. Sung Ae fica escanteada em um hospital, onde um idoso das montanhas dá voltas até revelar que viu outros três monstros. O delegado investiga o caso junto com os moradores. Um grupo de caçadores destemidos e bem armados procura pela mata. Enquanto isso, uma médica realiza uma tenebrosa autópsia no monstro abatido. Em meio a um gore grotesco, ela descobre que o ser não possui órgãos semlhantes aos dos humanos. Na floresta, os caçadores também fazem uma descoberta que lembra o universo cinematográfico de Alien e as ilustrações de H. R. Giger.
O ato final reúne esses personagens, com exceção da médica, no grande confronto com os três monstros. Nesse segmento, as coisas ficam ainda mais peculiares. Há um certo descaso com os personagens. Os dois principais, o delegado e a policial, praticamente mudam de personalidade. O delegado se torna mais eficiente, e a policial, depois de ficar afastada da ação, conta agora com a ajuda de seu chefe. Os outros personagens não são devidamente apresentados, e alguns morrem pelo caminho sem muita consideração.
Um final frustrante
Além disso, o filme revela que os seres são alienígenas capazes de transitar entre duas formas, ambas extremamente rápidas e fortes: a selvagem (a aparência do monstro que atacou a cidade no início) e a humanizada, esta última exibindo os rostos identificáveis de Michael Fassbender e Alicia Vikander por baixo da computação gráfica. Apesar das eletrizantes cenas de combates e perseguições, surge uma desconfortável sensação de ser uma variação de Transformers, principalmente quando os monstros adquirem a forma mais rápida que lembra um carro superveloz.
Mas, a conclusão fica ainda mais incômoda. Enquanto observam uma tragédia de proporções apocalípticas, as duas criaturas sobreviventes conversam entre si na língua deles, com tradução nas legendas! Isso soa absolutamente fora de contexto, porque até então eles eram monstros implacáveis que caçam humanos. Pode ser uma tentativa de reviravolta inesperada criada pelo também roteirista Na Hong-jin. Porém, está mais para uma concessão para permitir uma sequência, intenção presente no subtítulo nacional de Hope: O Primeiro Impacto. No entanto, se essa sequência for confirmada e partir do momento em que este filme ficou fraco, as expectativas são as piores possíveis.
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Ficha técnica:
Hope: O Primeiro Impacto | Hopeu | 2026 | 160 min. | Coreia do Sul | Direção: Na Hong-jin | Roteiro: Na Hong-jin | Elenco: Hwang Jung-min, Zo In-sung, Hoyeon, Michael Fassbender, Alicia Vikander, Taylor Russell.
Distribuição: Imagem Filmes / MUBI.



