Em Hotel Amor, o seu segundo longa, o diretor brasileiro Hermano Moreira volta a trabalhar uma coprodução com Portugal. Desta vez, realizando o filme como se fosse um só plano-sequência. Não o faz rigorosamente, mas escondendo os cortes como Festim Diabólico (Rope, 1948). Hitchcock usou esse truque por causa da limitação dos rolos de películas. Moreira, provavelmente, porque a decupagem de seu filme é complicada demais para ser filmada em uma só tomada.
A trama acompanha uma jornada de trabalho de Catarina (Jessica Athayde), gerente do Hotel Amor (anagrama do Hotel Roma, que fica em Lisboa e serviu de locação para o filme). A rotina, que envolve a gestão de uma equipe difícil e as reclamações de uma clientela exigente, está ainda mais estressante neste dia porque o hotel foi vendido e a empresa compradora enviou sua executiva Telma (vivida por Vera Moura) para avaliá-la.
Os créditos iniciais de Hotel Amor, feitos com arte animada, remetem às comédias hollywoodianas da década de 1960. Nessa mesma pegada nostálgica, a trilha musical também é incisiva, reforçando o tom de cada cena, principalmente para enfatizar o humor. Porém, esse recurso soa exagerado e antiquado. Após a metade da duração, o espectador está mal-acostumado. Então, quando a música não toca, deixando apenas o som ambiente, a sensação é que a cena ficou chata. Essa impressão arruína a conversa no bar entre Catarina e Luís (Francisco Froes), o antigo amigo (e caso de uma noite só) que a encontra por acaso no hotel e insiste em se reconectar. A bem da verdade, contribui para o tédio esse personagem masculino muito maçante. Por coincidência, no diálogo, ele menciona um amigo em comum que virou cineasta e faz filmes sonolentos. Nos dois encontros que ele tem com Catarina, quem dorme é o espectador.
Situações variadas
As outras situações, porém, revelam uma variedade divertida e criativa. Envolvem uma equipe difícil: recepcionista displicente, carregador inexperiente, barman antipático, mensageiro interesseiro, arrumadeiras fofoqueiras. E clientes complicados e reclamões. Destaca-se, entre eles, a participação de Marcelo Adnet, que interpreta a si mesmo. Obviamente, Adnet tem a oportunidade de ser engraçado (e de fato é), mas o filme mostra que ele enfrenta o obstáculo de certas referências que os portugueses não conhecem (como a imitação de Silvio Santos). Além disso, o filme revela o outro lado da fama – por exemplo, os dois empregados do hotel que pedem para ele contar uma piada.
Em meio a essa grande miríade de situações, o plano-sequência se torna um desafio ainda maior. Mas, que colabora na fluidez da narrativa. Mantém o clima de tensão permanente, deixa a impressão de que o dia nunca acaba, pois aparece um problema atrás do outro para Catarina resolver. O diretor Hermano Moreira, em relação a isso, ousa desvirtuar a continuidade de tempo inerente a essa forma. Tanto no anoitecer (quando o barman sai para filmar e o plano que filma o céu é acelerado até chegar a noite), como durante a cena de sexo (a câmera filma a varanda e quando volta para a cama o casal já terminou a transa), o tempo dentro do filme transcorre mais rápido do que a sua duração.
A transformação de Catarina
A linha narrativa principal consiste no arco da protagonista Catarina. Por isso, o filme se aprofunda nela, entrando no drama pessoal que mudou a sua vida. Hoje, ela prefere se concentrar no trabalho para não enfrentar a sua tristeza. O reencontro com Luis, então, pode ser o gatilho para ela retomar de onde parou. É uma premissa simplista, mas que funciona para esta produção, cujo foco está mesmo em mostrar os bastidores de um hotel. Para isso, cria diversas situações inventivas que conseguem prender o espectador, embora a música carregada e o personagem Luis concorram contra a experiência. O orçamento, por sua vez, era limitado, como se pode deduzir pela quantidade pequena de torcedores que se aglomeram em frente ao hotel. O maior acerto mesmo é a escolha do plano-sequência, que sustenta a tensão o tempo todo e ajuda a potencializar os momentos engraçados de Hotel Amor.
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Ficha técnica:
Hotel Amor | 2025 | 90 min. | Portugal, Brasil | Direção: Hermano Moreira | Roteiro: Bruno Bloch | Elenco: Jessica Athayde, Francisco Froes, Vera Moura, Júlia Palha, Lucas Dutra, Marcelo Adnet, Margarida Corceiro, Lucas Sampaio, Igor Regalla, Cléo Malulo, Lucas Dutra, Raquel Tillo, Yulia Gancheva, Diana Marquês Guerra.
Distribuição: Imovision



