I Want Your Sex, de Gregg Araki, vende-se como um filme ousado, original, sexy e engraçado, mas essas são, justamente, as qualidades que o longa atinge apenas pela metade.
Logo na abertura, a produção traz um flash-forward que pretende ser tão inusitado a ponto de compelir o espectador a acompanhar o filme para descobrir como se chegou a essa situação. É o que encontramos em Se Beber, Não Case! (The Hangover, 2009), mas não aqui, pois a situação (um homem com roupas íntimas femininas e um corpo boiando na piscina da casa) não chega ao absurdo do tigre em um quarto de hotel no longa de Todd Phillips. Da mesma forma, a cartela que leva à narrativa principal (9 ½ semanas antes) indica o nível da originalidade que encontraremos pela frente.
O relato faz parte do interrogatório, diante da polícia, de Elliot Bell (Cooper Hoffman), o personagem que protagonizou a introdução. Começa no ambiente sofisticado de um ateliê de arte. O local reforça a construção da imagem de dominatrix de Erika Tracy, a artista e dona da empresa interpretada por Olivia Wilde. Repetindo seu padrão de predadora sexual, ela contrata Elliot como seu funcionário já pensando em usá-lo como seu escravo em uma relação sadomasoquista. Ele é a vítima perfeita, pois vive um relacionamento falido com sua namorada Minerva (papel da cantora Charli XCX, que está investindo forte na carreira de atriz), interessada apenas em estudar. Para ilustrar o quão alienados eles se encontram, Elliot imagina a parceira sexualizada em sequências feitas por animação. Em outro momento, ele afunda dentro do colchão da cama, em mais um efeito que se pretende criativo.
Ritmo frenético e o jogo conservador de BDSM
O filme emenda uma música atrás da outra, causando um desconforto sonoro tremendo para que a narrativa transcorra aceleradamente, sem dar tempo para o espectador pensar. Pelo menos, esse ritmo frenético conecta-se com a rápida dominação de Elliot por Erika. Mas o jogo de BDSM peca pela falta de ousadia. Basicamente, ele é mostrado em uma montagem com planos curtos das práticas eróticas, tudo dentro dos limites controlados do conservadorismo americano.
Por outro lado, o longa funciona em relação à construção do personagem principal. Elliot é um loser, e sua frustração o leva ao desespero de se submeter ao jogo de dominação de sua chefe para dar vazão aos seus desejos sexuais. Mas logo se ilude e acredita ser um incrível amante, o que cai por terra quando ele se oferece (a mando de Erika) para uma visitante estrangeira (papel de Roxane Mesquida). Mais para a frente, o filme conecta seu sentimento com o de sua melhor amiga, interpretada por Chase Sui Wonders.
A sede pelo poder e a força do silêncio
No caso de Erika, seus ímpetos sexuais são a materialização de sua sede insaciável pelo poder. Por isso, abusa de sua posição de dona da empresa e de seu prestígio como artista. Quando perde tudo, é capaz de recorrer a medidas extremas.
I Want Your Sex é um filme barulhento, tanto na sua trilha musical quase incessante quanto no seu marketing. Mas as suas qualidades estão nos momentos silenciosos que marcam as frustrações de seus personagens. Pode não ser ousado, original, sexy ou engraçado, mas possui certa força quando deixa de lado o que é superficial.
___________________________________________
Ficha técnica:
I Want Your Sex | 2026 | 90 min. | Estados Unidos | Direção: Gregg Araki | Roteiro: Karley Sciortino, Gregg Araki | Elenco: Olivia Wilde, Cooper Hoffman, Charli XCX, Daveed Diggs, Mason Gooding, Chase Sui Wonders, Johnny Knoxville, Margaret Cho, Roxane Mesquida.
Distribuição: O2 Play.



