Iracema – Uma Transa Amazônica

Poster de !Iracema - Uma Transa Amazônica" (divulgação)

Título original: Iracema - Uma Transa Amazônica

Direção: Jorge Bodanzky, Orlando Senna

Ano de lançamento: 1974

Data de estreia no Brasil: 24/07/2025

Gênero: ,

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 8/10

O título Iracema – Uma Transa Amazônica traz um trocadilho típico de produção da Boca do Lixo. Mas, a dupla de diretores Jorge Bodansky e Orlando Senna realiza um retrato sério e pungente do que acontecia na região Norte do Brasil no início dos anos 1970, durante a ditadura militar.

Embora o roteiro seja ficcional, o longa apresenta vários elementos documentais. Começando pela escalação de Edna de Cássia no papel principal, mesmo sem ser uma atriz profissional – ela sequer fez ou faria outro filme após este. Além disso, as filmagens acontecem em locações, em Belém do Pará e em várias estradas de difícil acesso. Durante essas andanças, os realizadores registram os moradores em sua vida cotidiana, sem encenações. Alguns cedem depoimentos sobre o que eles pensam sobre as ações do governo para explorar a região. Outros entram no filme em furtivas aparições sem que percebam. Dessa forma, o filme denuncia abusos do INCRA e dos latifundiários, como queimadas e derrubadas de árvores, exploração sexual e econômica dos mais pobres. Transmissões de rádio auxiliam na documentação do dia a dia na região amazônica.

A jornada de Iracema

Misturando ficção e realidade, a narrativa acompanha a jovem de origem indígena Iracema, desde que ela acompanha a sua família que se sustenta vendendo açaí. Os diretores usam enormes elipses do tempo para poder, assim, transmitir sua mensagem sobre o duro destino dessas pessoas simples como a protagonista. Ainda muito nova, aos 15 anos, Iracema vagueia sem seus familiares pelas ruas de Belém, onde participa da tumultuada procissão de Círio de Nazaré. À noite, ela já está abraçada com um homem, na zona de prostituição da cidade.

Fazendo ponto num bar, Iracema conhece o caminhoneiro gaúcho Tião (Paulo César Peréio). Com um nacionalismo acentuado, ele comemora o progresso da Amazônia que o governo promove com a construção da rodovia Transamazônica. Esse pensamento não é exclusivo dele, como comprova uma conversa de políticos e empresários em um restaurante. Pessoalmente, Tião tira proveito dessa estratégia política, podendo lucrar com o transporte de madeiras, inclusive com o comércio ilegal delas.

As elipses trazem saltos à narrativa. Logo, Iracema toma carona no caminhão de Tião e atravessa boa parte da região, usando o seu próprio corpo como pagamento pela viagem. Mas, Tião se cansa dela e os dois se separam. O filme, então, passa a focar apenas em Iracema. A jovem continua na prostituição, se sujeitando a algumas enrascadas, inclusive ao estupro (que fica fora da tela por conta de mais uma elipse). Tempos depois, não é possível precisar quanto, Tião reencontra Iracema, irreconhecível, junto a um decadente grupo de prostitutas velhas e bêbadas à beira da estrada. Iracema – Uma Transa Amazônica se encerra aí, sem necessitar acrescentar nada para expressar o engodo que foi esse fiasco que o governo vendeu como milagre econômico.

Versão restaurada

Esse retrato duro volta às telas do cinema em versão restaurada nem 4K o dia 24 de julho de 2025. É uma nova oportunidade para aprender com essa aula de História autêntica, que a ditadura censurou na época de seu lançamento original.

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Ficha técnica:

Iracema – Uma Transa Amazônica | 1974 | Brasil, Alemanha Ocidental, França | 91 min. | Direção: Jorge Bodanzky, Orlando Senna | Roteiro: Jorge Bodanzky, Hermanno Penna, Orlando Senna | Elenco: Paulo César Peréio, Edna de Cássia, Lúcio Dos Santos, Elma Martins, Natal, Fernando Neves, Wilmar Nunes, Sidney Piñon, Rose Rodrigues, Conceição Senna.

Distribuição: Gullane.

Trailer:

Onde assistir:
Paulo César Peréio e Edna de Cássia em "Iracema - Uma Transa Amazônica" (divulgação)
Paulo César Peréio e Edna de Cássia em "Iracema - Uma Transa Amazônica" (divulgação)

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