Juntos

Título original: Together

Direção: Michael Shanks

Ano de lançamento: 2025

Data de estreia no Brasil: 14/08/2025

Gênero: ,

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 9/10

Sabe aqueles casais que vivem grudados? Para onde um vai, o outro segue atrás? Pois o filme Juntos, surpreendente estreia do diretor e roteirista Michael Shanks, faz da interpretação literal da expressão “vivem grudados” o mote de uma versão doentia dessa ideia, abraçando o body horror no melhor estilo David Cronenberg com direito a delírios lovecraftianos e mitologia platônica.

A ideia é bem original, mas nem por isso o filme depende da surpresa para impactar o público. Por isso, os cartazes de divulgação dão pistas sobre o que vai acontecer, e o trailer praticamente confirma as suspeitas. Ainda assim, para quem não viu esses materiais, ao assistir ao filme, a introdução da história deixa bem evidente. Espertamente, mostrando um caso semelhante do que se sucedeu com cães, num vislumbre de 1 segundo, para que o espectador se sinta ainda mais compelido a acompanhar o enredo. Essa abertura, além disso, se conectará perfeitamente com o desenrolar da trama, reforçando-a. Portanto, uma solução bem mais funcional e criativa para a abertura do que o batido flash-forward que virou lugar comum nas produções contemporâneas.

Dave Franco interpreta Tim, o namorado de Millie (Alison Brie), que acaba de aceitar uma proposta para trabalhar como professora numa escola do interior. Feito isso, o casal dá uma festa de despedida aos amigos da cidade grande, na qual fica claro que o relacionamento dos dois está num momento de crise. A mudança pode, esperançosamente, fazer bem para eles e, quem sabe, talvez voltem a fazer sexo. O principal motivo do desentendimento é o fato de Tim insistir numa carreira de músico que nunca decolou, enquanto Millie encara um trabalho assalariado. Ela afirma que isso não é um problema, e quer até que ele tenha espaço para investir em seu sonho. Mas, será que ela realmente pensa assim?

A metade da laranja

Repleto de analogias sobre relacionamento entre casais, principalmente a codependência, Juntos poderia ser um terror psicológico. Porém, prefere apostar no sobrenatural, ou na ficção-científica (já que o local onde se encontra a água que provoca os fenômenos lembra a parede da nave encontrada em Alien, o 8º Passageiro [1978], de Ridley Scott). Por isso, o sofrimento de Tim por não conseguir ficar longe de Millie não é apenas emocional, mas físico. Na verdade, brutalmente violento, pois estamos num filme de terror.

Da mesma forma, o ficar perto da companheira implica também numa reação física, que gradativamente se torna mais tenebroso. O agravamento dos efeitos provoca arrepios por o que o espectador começa a imaginar que vai acontecer. E o filme entrega tudo, concretizado em efeitos especiais e visuais horripilantes (e doloridos para aqueles mais sensíveis que se deixam levar pela conexão empática).

Os corpos fundidos que lembram H.P. Lovecraft e repetem a sensação que provocou o recente A Substância (2024), de Coralie Fargeat, são imagens aterradoras. Porém, impressionam ainda mais por se referenciarem à dependência doentia entre duas pessoas. Conceito, aliás, que o roteiro embasa com o mito de Platão (no diálogo “O Banquete”) sobre a origem dos humanos como seres duplos, com quatro braços, quatro pernas e duas cabeças, que, divididos por Zeus, precisam buscar a sua outra metade. O final arrebatador – este sim, uma surpresa – reúne numa lógica insana tudo o que o filme apresentou anteriormente, corroborando o mito da busca da totalidade de Platão como o segredo para a felicidade no relacionamento. Quem duvidar, que pergunte para o vizinho.

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Ficha técnica:

Juntos | Together | 2025 | 102 min | Austrália, EUA | Direção: Michael Shanks | Roteiro: Michael Shanks | Elenco: Dave Franco, Alison Brie, Damon Herriman, Mia Morrissey, Karl Richmond, Jack Kenny, Francesca Waters, Jack Kenny.

Distribuição: Diamond Films.

Trailer:

Onde assistir:
Alison Brie em "Juntos"

Outras críticas:

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