Em Living the Land, o cineasta chinês Huo Meng transporta para as telas as lembranças de sua infância em um vilarejo na província de Henan em 1991. O protagonista Chuang, de 10 anos, narra a história, que se passa durante um curto período que começa com o funeral da sua avó e termina com a morte de outra parente. O menino fica sob os cuidados da bisavó quando os pais se mudam para Shenzhen, cidade industrial que se abre para o capital estrangeiro trazendo muitas oportunidades de trabalho.
A partir da perspectiva de Chuang, o filme apresenta diversos personagens, a maioria integrante da sua família. No lugar do tradicional arco narrativo, o filme pretende descrever como era a vida naquele lugar e espaço, palco de mudanças enormes. Há séculos, os moradores da região viviam de uma agricultura de subsistência. A partir de 1949, com a proclamação da República Popular da China por Mao Tsé-Tung, os camponeses passaram a trabalhar coletivamente. Mas, na época do filme, no governo do novo líder Deng Xiaoping, a produção individual retorna. Nessa reabertura, vários chineses da zona rural se mudam para cidades industriais, como fizeram os pais de Chuang.
Além do aspecto econômico, Living the Land toca também no social, onde a tradição contrasta com essa abertura. A política do filho único, as transmissões oficiais na TV e no rádio, o imposto para se poder estudar, a falta de energia etc. estão entre os fatores que marcaram a memória do diretor Huo Meng.
Por outro lado, tradições de séculos ainda são seguidas pelas famílias. A jovem tia do protagonista, por exemplo, não se livra de um casamento arranjado, apesar de ficar extremamente triste com isso. Já os lamentos exageradamente dramáticos no funeral são vistos com um olhar desconfiado pelo filme, mais como um costume do que uma comoção incontrolável.
Prosa e poesia
O diretor Huo Meng alterna momentos de prosa com outros de poesia. Os planos gerais, que filmam de longe os personagens em suas rotinas, parecem feitos para um documentário. Mesmo quando filma com maior proximidade, prevalece um distanciamento que evita colocar o espectador dentro dos dramas do enredo. Parece que a intenção é descrever como era a vida daquela comunidade naquela época. Certamente, o filme não tem o objetivo de construir um arco narrativo.
No entanto, esse distanciamento não impede a busca pela poesia. As lembranças de Huo Meng estão carregadas de sentimentalismo. Em parte, pela nostalgia, mas também pela saudade pelas pessoas que se foram. Por isso, além de começar e terminar com um funeral, a última cena mostra as cinzas da bisavó caírem na terra, uma imagem que sintetiza a vida dessa comunidade que tira seu sustento da agricultura há séculos. Após esse encontro entre pó e terra, a câmera se afasta da família e do corpo físico, deslizando pelo campo. É a câmera-caneta que encerra o filme com lirismo.
Em seu segundo filme, Huo Meng indica possuir um estilo muito pessoal. Living the Land soa diferente, até mesmo do cinema chinês. Possui certa frieza, quebrada com um sentimentalismo nada apelativo. Retrata memórias do passado que confortam.
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Ficha técnica:
Living the Land | Sheng Xi Zhi Di | 2025 | 132 min. | China | Direção: Huo Meng | Roteiro: Huo Meng | Elenco: Wang Shang, Zhang Yanrong, Zhang Chuwen, Zhang Caixia, Yang Kaidong.
Distribuição: Autoral Filmes.



