Mãos à Obra, oitavo longa da diretora, e também atriz, Valérie Donzelli escancara o drama de um escritor que se sujeita a qualquer tipo de trabalho para manter viva a sua aspiração maior. O roteiro adapta o livro autobiográfico de Franck Courtès lançado em 2023.
No filme, Paul Marquet (Bastien Bouillon) desiste de uma estabelecia carreira como fotógrafo para se dedicar à escrita. Já lançou três livros que venderam razoavelmente bem para um iniciante, mas num volume insuficiente para garantir o seu sustento. Nesse processo, se separou da esposa (vivida pela diretora Valérie Donzelli), que agora mora em Montreal com os dois filhos do casal. Enquanto isso, ele precisa se mudar para um apartamento menor e mais barato.
Paul não quer desistir de ser escritor e enfrenta duras críticas da sua família – do pai, da irmã e da ex-esposa. Numa discussão mais aguda, o pai lhe diz que ele não é mais criança e precisa dar um jeito em sua vida. Para equilibrar sua pretensão com a necessidade, ele se cadastra num aplicativo de serviços diversos como freelancer. Mas, como isso funciona como um leilão, ele recebe muito pouco por trabalhos como cortar a grama, desmontar móveis, retirar plantas de vasos etc.
Um filme muito dramático
Apesar de alguns raros alívios minimamente cômicos, o filme enfatiza o drama do protagonista. Como ele próprio afirma, ele se encontra numa situação de quase pobreza, “como um dia às 17h, quando está escuro, mas ainda não é noite”. A direção de Valérie Donzelli insere uma nota depressiva ao privilegiar cenas noturnas, e fotografia escura também nas diurnas. A textura granulada e a baixa resolução em alguns trechos aqui servem para caracterizar um mundo menos radiante. Para completar, os close-ups extremos ainda criam a sensação do sufoco que sente o protagonista ao não ver alternativas melhores para sua escolha de vida.
Acima de tudo, o que aproxima o espectador do personagem principal são os trechos com narração em estilo literário (provavelmente tirados do livro de Franck Courtès), que traz lembranças do estilo poético de François Truffaut. Esse recurso recorrente expõe os pensamentos de Paul diante dessa experiência. Sem precisar apelar para a virada na trama, fica evidente que essa vivência é que faltava para ele escrever um livro que tocasse os seus leitores. Seu título, no original “A pied d’œuvre” e na tradução “Mãos à Obra”, se encaixa perfeitamente nesse processo, já que a expressão motivadora contém a palavra “obra”, que vale como significado de “livro”.
O filme Mãos à Obra está na seleção do Festival de Cinema Francês do Brasil de 2025.
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Ficha técnica:
Mãos à Obra | À pied d’œuvre | 2025 | 92 min. | França | Direção: Valérie Donzelli | Roteiro: Valérie Donzelli, Gilles Marchand | Elenco: Bastien Bouillon, Virginie Ledoyen, Marie Rivière, Valérie Donzelli.
Distribuição: Bonfilm.



