Vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes, Minotauro é um dos filmes mais aguardados da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Além deste novo lançamento, dois filmes anteriores do diretor russo Andrey Zvyagintsev ganham exibição especial no festival: O Retorno (2003) e O Desterro (2007).
Minotauro se baseia em A Mulher Infiel (1969), de Claude Chabrol. Adaptando-o para a Rússia, em 2022, Zvyagintsev revela aos poucos a monstruosidade de um homem poderoso. O empresário Gleb (Dmitriy Mazurov) é casado com a bela Galina (Iris Lebedeva), com quem tem um filho ainda criança. A família mora em uma moderna casa de madeira e vidro numa floresta. Os vidros ao redor do imóvel transmitem uma falsa impressão de transparência, pois o casal esconde segredos um do outro. Na verdade, eles até incitam a desconfiança do marido, que vê a esposa no escuro, conversando com alguém pelo celular (atente para o inteligente uso da luz do aparelho para iluminar o rosto dela).
Em construção lenta, demora para o marido e o espectador descobrirem a infidelidade da esposa. A primeira reação do público, condicionado a anos de patriarcalismo, talvez seja julgar a personagem Galina, uma mãe e esposa que engana a família. No entanto, no decorrer do filme, essa impressão se inverte, pois a monstruosidade está em outra pessoa.
Segredos
Galina não suporta a vida de privilégios que faz parte do círculo dos empresários bem-sucedidos de Gleb. Isso fica evidente no jantar em um restaurante chique com os amigos dele, que falam sobre a boa vida que levam. Não é à toa, portanto, que o amante de Galina seja um modesto fotógrafo. Emblematicamente, o diretor Zvyagintsev filma o encontro dela com o rapaz com a câmera móvel, que completa um giro de 360º pelo apartamento dele, saindo e retornando ao mesmo ponto: a cama onde eles transam. Portanto, o oposto da câmera fixa que filmou Gleb e Galina em sua casa na floresta.
O empresário também tem seus segredos, estes verdadeiramente imorais. Quando o governo exige que ele entregue uma lista com 15 de seus funcionários para irem para a guerra da Rússia na Geórgia, ele trapaceia. Para não desfalcar seu quadro enxuto, o que poderia comprometer a lucratividade da operação, Gleb contrata 15 novos empregados, sem que exista vaga para eles. Na reunião de boas-vindas, incapaz de encarar esses trabalhadores ludibriados, ele olha para baixo. Porém, a câmera obriga o espectador a olhar o rosto de cada um, humanizando-os. A posterior despedida dos familiares aos convocados que podem não retornar reforça essa sensibilidade.
Elementos de suspense
Um brutal e inesperado assassinato acontece. Zvyagintsev se inspira em Hitchcock para mostrar o quanto é difícil matar uma pessoa, e mais ainda ocultar o seu cadáver e as pistas do crime. Estranhamente, na sessão de cabine de imprensa onde assisti ao filme, ouvi algumas pessoas rirem durante essa longa cena. Não é a primeira vez que testemunho esse tipo de comportamento do espectador que tenta achar graça onde ela não existe. Neste caso, talvez o silêncio da cena seja o motivo — as pessoas agora precisam que a trilha musical evidencie o tom. Por falar na trilha, em alguns trechos os ruídos (de trem, de pássaros) substituem a música.
O filme segue trabalhando o suspense. Galina percorre a cidade atrás de pistas de seu amante. Em certo momento, ela atravessa uma ponte que passa por cima do rio onde o cadáver foi jogado. Ali perto, o assassino depois retorna para conferir se nenhuma pista ficou para trás. Depois, dois policiais batem à porta do casal porque descobriram que Galina tinha contato com essa pessoa desaparecida.
Por trás dessa história criminal, pulsa uma forte crítica social. Além de ter o poder de escolher quem vai lutar na guerra, o empresário influente ainda assegura que, caso descubram que ele é o autor de um assassinato, nunca será preso. Na última cena, ele viaja em um avião e olha do alto para as nuvens abaixo dele, confiante de que está acima das leis.
___________________________________________
Ficha técnica:
Minotauro | Minotaur | 2026 | França, Alemanha, Letônia | 135 min. | Direção: Andrey Zvyagintsev | Roteiro: Simon Lyashenko, Andrey Zvyagintsev | Elenco: Dmitri Mazourov, Iris Lebedeva, Boris Koudrine, Yuriy Zavalnyouk, Varvara Chmykova, Vladimir Friedman, Elena Bogdanovitch-Goloubeva.
Distribuição: Imovision, MUBI.



