O diretor Guy Ritchie faz o seu melhor cinema autoral dentro do gênero ação, mas quando não exagera no tom cômico. Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998), Snatch (2000), RocknRolla (2008) e Infiltrado (2021) são alguns exemplos positivos. Porém, alguns de seus mais recentes filmes de ação – Esquema de Risco: Operação Fortune (2023), Guerra Sem Regras (2024) e A Fonte da Juventude (2025) – carregam demais no humor e retiram a visceralidade da violência. O prolífico Ritchie mantém uma média de um longa por ano, e seu novo lançamento já está pintando por aqui. Coincidindo com o seu título, Na Zona Cinzenta está no meio desses dois grupos de filmes. Tem comédia, mas não demais.
Músculos e mente
A trama acontece no submundo, não daquele habitado por criminosos notórios, mas por empresários bilionários que escondem suas fortunas em paraísos fiscais. Eles não matam ninguém – mandam matar. É o que faz Bobby (Rosamund Pike), ao contratar a advogada Sophia (Eiza González), para cobrar o empréstimo de um bilhão de dólares que fez a Salazar (Carlos Bardem), um poderoso tirano dono de todos os tipos de negócios. Alta executiva de uma sofisticada instituição financeira, Bobby sabe que Sophia (como esta própria se apresenta no flash forward introdutório) atua na zona cinzenta entre o legal e o ilegal.
A astuta Sophia conta com uma equipe de especialistas. Na linha de frente, estão Bronco (Jake Gyllenhaal) e Sid (Henry Cavill), executores impiedosos dos mais ardilosos planos para intimidar e causar prejuízos a Salazar até que ele decida devolver o empréstimo em sua integralidade. Na ilha que praticamente pertence a Salazar, o grupo de Sophia demonstra ser tão ou até mais letal que a milícia (e a polícia) do tirano. Porém, é no bolso que ele sofre mais. O hacker de Sophia, com o apoio físico de Sid, descobre as contas sigilosas de Salazar, possibilitando a execução das suas dívidas. Além disso, encontra brechas para causar prejuízos aos seus negócios. Diferente de Bronco e Sid, Sophia derrota Salazar nos tribunais.
Dosando ação e humor
As cenas de ação são filmadas de forma direta, sem as firulas que Guy Ritchie costuma desfilar. Desta vez, o estilismo aparece nas explicações dos intrincados planos de Sophia e seu time. Mapas, setas, nomes de lugares aparecem na tela para que o público entenda como os heróis conseguem obter informações e sabotar Salazar. Devido à complexidade das manobras, se justifica esse modelo facilitador. Numa brecha esperta para o humor mais escrachado, em certo trecho aparece na tela uma lista de tudo que Bronco cita que foi providenciado. Mas, para os planos mais físicos, como a rota de fuga para tirar Sophia da ilha, Ritchie não recorre às cartelas e prefere simplesmente mostrar o que está sendo preparado.
Guy Ritchie é um bom narrador visual. Quando o braço direito de Salazar, interpretado por Fisher Stevens, revela que é uma mulher que está sabotando os negócios, entra um plano que mostra uma das garotas de programa que o bilionário contratou, um corte que revela, sem precisar dizer nada, o pensamento machista do vilão. Ou seja, para ele, mulher só serve para sexo, e seria inconcebível se deparar com uma rival feminina tão ardilosa.
Mas, o roteiro se estende por longas explicações dos planos da turma de Sophia. Então, para evitar quebras de ritmo no filme, Guy Ritchie insere sequências de ação periodicamente. Uma delas, a perseguição de motos na ilha, é apenas um teste da rota de fuga, mas está aí para animar o espectador. Outro momento, quando Sophia e Bronco entram num bar para tomar uma cerveja, parece ser uma cena de combate gratuita, porém depois aparece a sua justificação.
Sem pastiche
Algumas situações, entretanto, ficam sem explicação, dando a impressão de que o filme seria originalmente mais longo, mas foi reduzido no corte final. Por exemplo, o flashback muito curto que mostra como Sophia conheceu Bronco e Sid. Além disso, o filme não revela por que Sophia treme de nervoso e fica com lágrimas nos olhos depois que escapa da emboscada que ela armou para si mesma. A única explicação plausível segundo o que está neste corte seria o fato de ela nunca ter passado por uma situação tão arriscada, mas isso significaria que a sua autoconfiança é apenas fachada. Também não fica claro o motivo que faz um dos membros da equipe de Sophia se sacrificar pelo grupo. Enfim, talvez assistindo novamente essas dúvidas se resolvam.
Na Zona Cinzenta, essencialmente, é uma variação de filme de assalto (heist movie), mas seus planos mirabolantes são os meios para que os heróis do filme minem o poder do vilão todo poderoso. O humor entra num segundo plano, assim como a violência mais brutal. Guy Ritchie, desta vez, se dá bem porque evita a sensação de pastiche que marcou alguns de seus trabalhos mais recentes.
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Ficha técnica:
Na Zona Cinzenta | In the Grey | 2026 | 97 minutos | Estados Unidos | Direção: Guy Ritchie | Roteiro: Guy Ritchie | Elenco: Henry Cavill, Jake Gyllenhaal, Eiza González, Rosamund Pike, Jason Wong.
Distribuição: Diamond Films.







