Natal Amargo traz à tona outra inquietação criativa de Pedro Almodóvar.
Diretor que majoritariamente filma roteiros de sua própria autoria, Almodóvar com frequência insere elementos autobiográficos em suas obras. Pelo menos quatro de seus filmes – A Lei do Desejo (1987), Abraços Partidos (2009), Má Educação (2004) e Dor e Glória (2019) – possuem um diretor de cinema como protagonista. Esses personagens enfrentam crises de criatividade, experiência que ele mesmo viveu. Natal Amargo expõe a complexidade de se inspirar em pessoas próximas para criar uma ficção.
Qual o limite entre a obra original e a exposição da intimidade? O cineasta Raúl Rossetti (Leonardo Sbaraglia) está escrevendo seu novo roteiro, após anos sem lançar um novo filme ficcional. Mas, quando Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), sua assistente de confiança que trabalha com ele há 20 anos, lê a sua primeira versão, se enfurece porque encontra ali eventos que aconteceram na vida dela. Em especial, a morte de sua mãe e a do filho de sua companheira. Além desses dois personagens, faz parte dessa narrativa Santi (Quim Gutiérrez).
A outra narrativa, a do roteiro de “Natal Amargo” que Raúl escreve, a protagonista é Elsa (Bárbara Lennie), uma ex-diretora de cinema, que rodou apenas dois longas que viraram cult e que agora filma exclusivamente vídeos publicitários. Ela tem um namorado, o bombeiro e stripper Bonifácio (Patrick Criado), uma melhor amiga, Patricia (Victoria Luengo), que enfrenta uma crise conjugal, e outra amiga, Natalia (Milena Smit), que perde um filho e tem dificuldade de superar o luto.
Almodóvar puramente melodramático
Almodóvar constrói uma estrutura complexa, que alterna esses dois núcleos, o real e a ficção, além de misturar a ordem cronológica dos eventos. Por isso, entrega um filme anti-spoiler, pois não o importante não é o que acontece, mas como o roteirista Raúl se apropria do fato para transformar em ficção. Dessa forma, Almodóvar expõe o delicado trabalho de realizar essa transposição sem expor a privacidade de uma pessoa próxima.
O diretor espanhol mais uma vez adota um estilo visual menos espalhafatoso do que o seu habitual. Alguns planos trazem paredes com cores berrantes ao fundo, mas são poucos. A composição de quadro que mais salta aos olhos é aquele plano do alto na praia com as duas personagens sentadas em suas toalhas na areia. Destaca-se o uso massivo de closes nos rostos dos atores. Dois trechos musicais soam intrusivos, mas se justificam porque fazem parte do roteiro que Raúl está escrevendo, portanto, não da vida real.
Natal Amargo é complexo porque Almodóvar quis construí-lo assim. Provavelmente, para evidenciar o quão complicado pode ser a criação de um roteiro. Pelo mesmo motivo, adota um tom absolutamente sério. Mas, extrapola no uso de música tensa, que antecipa um suspense que não existe. O melodrama está mais maduro em seu cinema, que se distanciou consideravelmente de suas origens.
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Ficha técnica:
Natal Amargo | Amarga Navidad | 2026 | 111 min. | Espanha | Direção: Pedro Almodóvar | Roteiro: Pedro Almodóvar | Elenco: Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit, Quim Gutiérrez, Rossy de Palma, Carmen Machi, Gloria Muñoz.
Distribuição: Warner Bros. Pictures










