A atriz e dramaturga Grace Passô estreia como diretora de longas em Nosso Segredo. O roteiro, de sua autoria, adapta para o cinema a sua peça de teatro “Amores Surdos”, que ela encenou com o grupo Espanca! em 2006.
O filme começa explorando a forte onda de autenticidade no cinema brasileiro contemporâneo, capitaneada pela produtora Filmes de Plástico, para quem Grace Passô atuou em três longas marcantes: Temporada (2018), No Coração do Mundo (2019) e O Dia Que Te Conheci (2023). Seguindo esta tendência, a diretora filma em locações para retratar uma família negra do subúrbio em sua rotina.
Dentro desse viés, Grace Passô poderia realizar um filme tão belo quanto aqueles dirigidos por André Novais Oliveira, Gabriel Martins e Maurílio Martins. No entanto, ela vai além da busca pela autenticidade. A rotina, no contexto do filme, não é normal. Afinal, a família acabou de perder um dos seus membros, mas tenta seguir em frente sem falar sobre isso. É o que faz Gilson, o motorista por aplicativo, quando vê na sua carteira a foto de seu pai falecido durante a conversa com seu passageiro.
Este passageiro, por sinal, faz perguntas que provocam a reflexão, e ainda menciona sobre “a coisa que a gente sabe, mas não quer saber”. A frase prenuncia o tema principal do filme. Numa revisão, essa fala parece entregar demais, mas como está na abertura do enredo, não prejudica a narrativa. Tal problema, o de facilitar o entendimento para o espectador, porém, surge em outros momentos. Por exemplo, a filha do falecido faz uma busca no Google pelos termos “dificuldade para chorar”, quando essa sensação já estava compreendida no uso do fone de ouvido para não ouvir o som da família ao redor e na ruptura silenciosa com seu namorado.
Elefante branco
Da mesma forma, esse didatismo aparece quando o menino Tutu diz que o animal “só faz mal para quem é branco” e no relato do filho pichador que explica por que chegou em casa machucado. E, também, quando o namorado explica para o menino como enfrentou o valentão da escola quando tinha essa idade. O filme se prejudica, além disso, quando apela para o sentimentalismo fácil. É o que acontece quando a tia brinca com Tutu no quintal ao som de uma melodia envolvente ao piano.
Por outro lado, Nosso Segredo possui cenas muito potentes. Entre elas, o flashback de Gilson com o pai, que logo se revela um sonho surreal. Esse jogo dissimulador que engana o espectador também acontece na suposta gota de sangue que escorre pela parede da casa em momentos diversos. Sem contar a materialização do tema central da incomunicabilidade, evidenciado nas perguntas que ficam no ar sem resposta. E nas situações mal resolvidas, como o relacionamento lésbico da tia, a desconfiança de que o filho jovem está indo para o crime e, finalmente, o quase literal “elefante branco no meio da sala” sobre o qual ninguém comenta.
O menino Tutu, catalisador involuntário desse ambiente dissuasivo, sofre com indagações precoces. Pondera que a vida é difícil, que o mundo é muito errado. É ele quem chega mais perto de explicitar que a principal questão mal resolvida não está no luto em si, mas no fato de que o pai era o único branco da família, o que gerava inquietações de ambos os lados. A materialização do animal africano que só faz mal aos brancos evidencia esse desconforto.
O pico dramático
O grande clímax emocional coloca todos os membros da família reunidos. Eles recitam, item a item, a lista de compras que o pai enviou para eles – a última mensagem que ele deixou antes de morrer. Substituindo as tradicionais preces, são essas palavras que revelam que todos sentem tanta falta dele que já ouviram várias vezes essa mensagem, a ponto de decorarem a lista. Nosso Segredo deveria terminar nessa cena comovente – o que vem depois não acrescenta nada e estraga a experiência de sair da sala do cinema impactado.
___________________________________________
Ficha técnica:
Nosso Segredo | 2026 | 107 min. | Brasil, Portugal | Direção: Grace Passô | Roteiro: Grace Passô | Elenco: Ju Colombo, Robert Frank, Tássia Reis, Efraim Santos, Flip, Mateus Aleluia, Nanego Lira.
Distribuição: Vitrine Filmes / Sessão Vitrine Petrobras.



