Realizado após o fim da Segunda Guerra Mundial, o tribunal internacional formado por juízes dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e União Soviética que colocou nazistas no banco de réus, já rendeu diversos filmes. O mais famoso deles é Julgamento em Nuremberg (1961), de Stanley Kramer, um colosso de três horas de duração. Agora, o diretor James Vanderbilt trata do tema em Nuremberg com o olhar diferenciado do livro “O Nazista e o Psiquiatra”, de Jack El-Hai, que relata o trabalho do capitão Douglas McGlashan Kelley, um psiquiatra designado para supervisionar o estado mental dos prisioneiros nazistas durante a detenção.
O filme coloca o juiz da Suprema Corte dos EUA, Robert H. Jackson (Michael Shannon), como o principal patrocinador deste processo. Segundo ele, se fuzilarem os nazistas sem julgamento, os que ainda acreditam na ideologia de Hitler poderão vê-los como mártires. E esse sentimento pode fazer brotar novamente esse nazismo dali a alguns anos. Porém, se forem condenados por um tribunal internacional, serão um exemplo do que o mundo não tolera.
O trabalho do Dr. Kelley
Uma vez aprovada a proposta do Tribunal de Nuremberg, a trama acompanha os trabalhos de Douglas Kelley (Rami Malek). A princípio, sua missão é avaliar se os prisioneiros apresentam riscos de se suicidar (como Hitler) ou de praticar algum outro ato desesperado. O Dr. Kelley se depara com alguns presos ainda vociferando discursos de ódio contra judeus.
Mas, se interessa principalmente por Hermann Göring (Russell Crowe), o Marechal do Reich, sucessor de Hitler. Extremamente carismático, o psiquiatra se esforça para enxergar além da persona profissional do seu paciente. Encontra a pessoa humana, que ama e se preocupa com a esposa e a filha. E que alega nunca ter tido conhecimento de que os campos de trabalho que ele criou para prisioneiros era usado como campo de extermínio.
A humanização de Göring convence o Dr. Kelley, e o espectador. Afinal, o filme mostra o nazista em conversas inteligentes e simpáticas com o psiquiatra, e este se encontrando com a adorável filhinha do marechal e sua esposa igualmente encantadora (até demais, pois quem a interpreta é Lotte Verbeek, atriz muito mais jovem do que Crowe, embora Hermann e Emmy Göring tivessem a mesma idade).
O tribunal
Nos 30 minutos finais do filme, acontece o julgamento. O Dr. Kelley tem certeza de que o mediano Jackson será trucidado pelo astuto Göring. Porém, ele não pode mais intervir, pois o tiraram do caso porque falou demais para uma jornalista por quem ele estava interessado (um início de flerte que pouco acrescenta à narrativa). Além disso, ele tinha a ambição de publicar um livro sobre essa experiência e enriquecer com isso.
O ponto de transição para o Dr. Kelley é uma conversa com o seu intérprete, que conta a sua dura vida como judeu exilado. Para o público, o filme se torna contundente quando surgem as imagens reais de arquivo com as atrocidades cometidas nos campos de concentração, exibidas no tribunal. Impossível não ficar abalado com a crueldade que praticada nesses lugares terríveis. Logo depois, com a intervenção oportuna do promotor britânico Sir David Maxwell-Fyfe (Richard E. Grant), fica evidente que Göring enganou o psiquiatra e o espectador durante todo o filme até então. Não tinha como ele não saber dos extermínios nos campos de concentração.
A direção
James Vanderbilt já dirigiu outro filme político, Conspiração e Poder (Truth, 2015), sobre o governo de George W. Bush. Volta ao gênero agora, em seu segundo longa. Filma com austeridade, sem arriscar muito e, por isso, com precisão, principalmente o desenvolvimento da relação entre Dr. Kelley e Göring. Mas, arrisca pelo menos ao mostrar a história do nazista Rudolf Hess (Andreas Pietschmann) como se fosse um filme mudo (com velocidade acelerada, porém com cores).
Algumas escolhas se sobressaem como defeitos, como o escritório de Jackson com várias folhas espalhadas pelo chão como sinal de que ele passou a noite estudando o material que o psiquiatra lhe entregou, uma solução bem artificial para mostrar isso. E, na cena do tribunal, as constantes intervenções de Elsie Doulgas (Wrenn Schmidt), secretária de Jackson, comentando com a pessoa ao seu lado – que no filme serve como muleta o espectador entender o que está acontecendo, o que é totalmente desnecessário.
Nuremberg traz essa nova luz sobre esse julgamento histórico. No geral, é bem filmado e consegue alertar, ou relembrar, a gravidade do holocausto e o perigo que se esconde por trás de uma pessoa magneticamente carismática.
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Ficha técnica:
Nuremberg | 2025 | 148 min. | EUA, Hungria | Direção: James Vanderbilt | Roteiro: James Vanderbilt | Elenco: Rami Malek, Russell Crowe, Michael Shannon, Leo Woodall, Richard E. Grant, Colin Hanks, John Slattery, Lydia Peckham, Wrenn Schmidt, Lotte Verbeek, Wrenn Schmidt.
Distribuição: Diamond Films.
Trailer:
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