Depois de Eiffel (2021), de Martin Bourboulon, chegou a vez de outro monumento parisiense ganhar um filme sobre a sua construção. Com base no livro de Laurence Cossé, o diretor Stéphane Demoustier relata em O Grande Arco de Paris o conturbado processo de criação do Grande Arco de La Défense.
O filme começa com a divulgação do vencedor do concurso do projeto para erguer um marco monumental no La Défense, o moderno distrito empresarial e financeiro de Paris. Para surpresa de todos, quem ganha é o desconhecido arquiteto dinamarquês Otto von Spreckelsen. Em sua coletiva para a imprensa, Otto confessa que em sua carreira só projetara a sua casa e quatro igrejas, num dos momentos em que o longa flerta com a comédia.
Extremamente idealista em seu projeto artístico, Otto refuta as alterações sugeridas pelo engenheiro contratado Paul Andreu, bem como as impostas pelo burocrata Savilon. Para conseguir sustentar as suas opiniões, Otto despacha diretamente com o presidente François Mitterrand. Porém, tudo muda quando Mitterrand perde as eleições.
A emulação de um documentário
Os eventos acontecem entre 1983 e 1987, o que parece ter motivado a diretora Stéphane Demoustier a escolher uma fotografia desbotada. Isso, de fato, remete ao passado, mas não exatamente à época dos acontecimentos, lembrando mais os anos 1970. O formato de tela 1,33:1, mais quadrado que o widescreen, também sugere o obsoleto. A conexão imediata é com os antigos televisores. Sobre esses aspectos técnicos, Demoustier justifica que a sua intenção foi emular os documentários nos tempos dos acontecimentos. Além disso, o formato quadrado faz referência ao cubo.
A aproximação com o estilo documental vai além da forma. Na parte inicial, beira o mocumentário, pois a vitória do arquiteto azarão é quase tratada como uma farsa. O anúncio causa espanto, porque nenhum dos presentes sequer ouviu falar do nome vencedor. E, insistindo nesse tom farsesco, tampouco a Embaixada da Dinamarca o conhece.
O comportamento do próprio Otto, sempre acompanhado de sua esposa, a responsável pela confecção das maquetes, provoca no público a impressão de que ele é um impostor. O casal age como dois fanfarrões quando se dá conta do enorme montante de dinheiro que ganhará com o projeto.
Posteriormente, o filme reconstrói a imagem de Otto como um profissional gabaritado e responsável. No processo de escolha do empreiteiro para executar a obra, Otto desqualifica um dos concorrentes ao notar que as juntas de uma construção daquela empresa estavam malfeitas. As excentricidades típicas de um artista (e é assim que ele se sente em relação à sua criação) não são tratadas com jocosidade, mas com respeito, pois são intransigências de um perfeccionista que quer materializar a sua criação tal qual ela foi concebida. O humor fica restrito à caracterização de Mitterrand pelo ator Michel Fau.
A estética
O formato de tela menos horizontal vira uma armadilha para o diretor Demoustier. O tema arquitetura instiga a realização de um filme com um primor geométrico, característica que se beneficia de um widescreen ou mesmo um scope. Isso fica evidente na cena em que o empreiteiro escolhido Paul Andreu mostra o aeroporto que construiu. O enquadramento simétrico capta toda a construção, mas sem o impacto que uma tela mais larga poderia dar. Ainda assim, Demoustier consegue filmar com brio arquitetônico, captando imagens do alto ou aproveitando o quadrado para refletir a altura do cubo.
O estilo documental, porém, impregna este relato com frieza. Concentrando no trabalho, o filme permite poucas aberturas para o drama pessoal, concentradas na parte final. Nelas, a atuação dos dinamarqueses Claes Bang e Sidse Babett Knudsen ganha força: numa dessas cenas, Otto trata mal a esposa e se arrepende; na outra, ele caminha em direção ao cubo em fase de construção adiantada, mas já sem o seu acompanhamento. Nada diz, mas ele certamente se sente desgostoso com as alterações feitas no projeto sem a sua anuência. Em seu momento derradeiro, num flerte com o realismo fantástico, o cão preto do presidente lambe a sua mão, simbolizando agradecimento.
Resta ainda destacar a escolha de dois atores dinamarqueses, Claes Bang e Sidse Babett Knudsen, para interpretarem os papéis de Otto e sua esposa.
Estranhamente, o filme não mostra o Grande Arco de Paris finalizado. Como ele seria filmado revelaria o que a diretora Demoustier pensa sobre a obra — ou, ao menos, a opinião dos parisienses sobre ela. É uma lacuna que se soma ao distanciamento do filme em relação aos eventos que retrata. O resultado frio se contrapõe ao temperamento do artista-arquiteto Otto von Spreckelsen, de acordo com o próprio longa. Duas obras — o filme e o monumento — que não atingiram as suas propostas.
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Ficha técnica:
O Grande Arco de Paris | L’inconnu de la Grande Arche | 2025 | 107 min. | França | Direção: Stéphane Demoustier | Roteiro: Stéphane Demoustier | Elenco: Claes Bang, Sidse Babett Knudsen, Xavier Dolan, Swann Arlaud, Michel Fau.
Distribuição: Imovision.



