O filme O Homem Mais Solitário da Cidade começa como se fosse um documentário. Mostra o cotidiano de Al Cook, cujo estúdio no subsolo do prédio onde mora conta a sua história: a guitarra, os quadros com fotos de músicos de blues, os LPs e o retrato da esposa revelam que ele é um músico aposentado. E solitário, como indica a canção que ele escolhe para ouvir no toca-discos (“I’m so tired of living alone”, diz o refrão). Logo mais, descobrimos que ele mora em um apartamento no primeiro andar e é o único inquilino desse endereço em Viena.
Al Cook vive sozinho, mas curte a solidão à sua maneira. É época de festas, e ele monta uma pequena árvore de Natal. De repente, a luz acaba; ele pega o telefone e chama o responsável para reclamar. Na escuridão, toca uma versão acústica de “Holy Night” em seu violão. Aí já fica nítido que não se trata de um documentário, pois o trecho é claramente encenado. A trama se inicia com o corte de energia, a primeira medida coercitiva do proprietário para forçá-lo a sair do prédio, pois esse último morador se recusa a deixar o lugar onde nasceu.
A luta do cidadão comum e o gatilho das memórias
Segue-se, então, a luta desproporcional das corporações contra o cidadão comum, situação que remete ao cinema de Ken Loach. Depois de cortar a energia, o proprietário corta a água e ainda envia o seu cobrador para invadir o apartamento todos os dias até o inquilino desistir. A solução dramática se adequa bem ao orçamento desta produção independente: não há discussões nem brigas físicas entre Al Cook e o invasor. O músico aceita que o oponente está apenas fazendo o seu trabalho.
Sua decisão não poderia ser outra: ele vai deixar o apartamento onde sempre morou. E mais: abdicará de todas as suas coleções e de seus móveis — processo de desapego que o longa mostra com a chegada de alguns compradores. Antes de sair, passa um tempo assistindo a antigas fitas VHS com filmagens dele ao lado da esposa e de seus amigos. Essa memória serve de gatilho para ele sonhar novamente em morar no sul dos Estados Unidos e se apresentar em casas de blues. Corajosamente, seu lema para esse momento difícil é: se tenho que me mudar, vou mudar para valer.
O Homem Mais Solitário da Cidade é um filme pequeno e adequadamente simples, que possui um encanto particular por causa de seu protagonista diferenciado e carismático.
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Ficha técnica:
O Homem Mais Solitário da Cidade | The Loneliest Man in Town | 2026 | Áustria | 86 min. | Direção: Tizza Covi, Rainer Frimmel | Roteiro: Tizza Covi | Elenco: Alois Koch, Brigitte Meduna, Alfred Blechinger, Flurina Schneider, Sarah Morrissette, Natascha Hiermann, Ingrid Schaffernack.
Este filme está na programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.



