O filme O Mago do Kremlin adapta para o cinema o livro homônimo de Giuliano da Empoli. A obra literária conta uma história fictícia, mas que se baseia em Vladislav Surkov, empresário e político russo que ocupou cargos de Vice-Chefe de Gabinete da Administração Presidencial e assessor no Gabinete Executivo Presidencial. No longa, seu nome é Vadim Baranov, papel de Paul Dano.
A narração de Rowland (Jeffrey Wright) conduz as primeiras cenas do filme. Ele é um jornalista estrangeiro que recebe um convite de Vadim Baranov para ouvir a sua história em sua casa, já fora do governo. Após uma amigável disputa na qual Baranov faz questão de estabelecer que é um grande conhecedor de política, Rowland lhe passa o bastão da narração.
Baranov, então, conta sobre sua infância privilegiada porque seu pai mantinha fortes conexões com o governo da União Soviética. E, se estende mais em relação à sua juventude nos loucos anos 1990, quando o fim da URSS fez explodir toda a ânsia por liberdade reprimida por décadas. Nessa fase, conheceu sua primeira namorada, Ksenia (Alicia Vikander), e o ambicioso e exibicionista Dmitri Sidorov (Tom Sturridge), pessoas que ele voltaria a ver somente muito tempo depois.
Sobre os personagens
Na verdade, o filme gasta tempo demais com esses personagens. Em alguns momentos, o enredo volta à conversa entre Baranov e Rowland, para lembrar que o relato tem origem nessa conversa – portanto, não é inventado – e talvez para permitir uma folga ao espectador em meio à massiva sucessão de eventos políticos. Já a presença de Ksenia abre oportunidade para mostrar o lado mais humano do protagonista – até com um forçado apelo emocional na parte final, quando uma troca de carinhos com a filha precede uma tragédia. Quanto a Dmitri, este se afasta de Baranov e a conexão entre os dois se resume a impactos de decisões políticas no alto escalão.
Os personagens mais importantes para a trajetória de Baranov são outros dois. Um deles é o empresário Boris Berezovsky (Will Keen), que assume o controle do canal de televisão ORT, para quem Baranov trabalharia com enorme destaque. O filme mostra Boris Yeltsin como uma figura patética, facilmente manipulável, mas que se tornou imprestável até para fingir ser o presidente. Então, Berezovsky escolheu Vladimir Putin, o diretor do Serviço Federal de Segurança, como o substituto de Yeltsin. O que foi um erro, pois Putin não era nada manipulável. Logo que pôde, Putin livrou-se de Berezovsky, assumiu a presidência e está lá até hoje.
Um executor
Putin manteve Baranov como o seu assessor, principalmente em relação a questões sobre sua imagem. Mas, ao contrário de Dick Cheney, o vice-presidente dos EUA durante o mandato de George W. Bush que também foi retratado no cinema – em Vice (2018), de Adam McKay – Baranov nunca chegou perto de ser o verdadeiro mandante do país. Sempre tendo em conta que se trata de uma ficção, o espectador entende que a importância de Baranov está nas suas soluções para concretizar as ordens de Putin – como a esdrúxula manipulação de grupos de protestos. Ou seja, como executor e não como idealizador.
Ainda sob a mesma cautela, O Mago do Kremlin prende a atenção por supostamente revelar as perigosas convicções de Vladimir Putin, que levam a decisões impiedosamente drásticas. E, como Baranov afirma no filme, considerando que a Rússia (assim como a União Soviética) sempre foi repleta de segredos, o interesse é ainda maior. Certamente, ninguém do governo russo emitirá um comunicado esclarecendo o que é real nesse relato. Quem quer ver uma perspectiva de dentro para fora pode conferir Um Zé Ninguém contra Putin [Mr. Nobody Against Putin, 2025], o documentário que ganhou o Oscar neste ano.
Um dos reveses de Mago do Kremlin é a escolha de Paul Dano e Jude Law, respectivamente como Barnov e Putin. Apesar da maquiagem que tenta deixá-los parecidos com Vladislav Surkov (esforço desnecessário, porque pouca gente conhece a sua fisionomia) e com o presidente da Rússia, é difícil vê-los em cena sem pensar nos atores, pois eles são muito conhecidos. Sempre surge um incômodo ruído que exige que se ignore os atores para entrar na trama com os personagens em ação. Esse problema nem sempre acontece quando alguém interpreta uma pessoa real, mas aqui se sente esse efeito, pela atuação insuficiente dos intérpretes.
A direção de Assayas
O Mago do Kremlin tem direção de Olivier Assayas, cineasta francês que volta a falar sobre a política de outros países depois do seu fraco WASP Network (2019), longa sobre revolucionários cubanos. Desta vez, divide a narrativa em capítulos, geralmente encerrando-os com uma transição em fade-out, para evidenciar a passagem do tempo.
Assayas falha na integração entre algumas linhas narrativas orbitais com o fio central da trama. Os eventos relacionados a Rowland, Ksenia e Sidorov possuem um tom mais leve, que entretêm por revelar como é viver na Rússia (ainda que na visão da elite). Por outro lado, os acontecimentos políticos são os mais importantes – e estes adotam uma abordagem extremamente séria, como realmente deve ser.
Baseado no livro de Giuliano Da Empoli.
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Ficha técnica:
O Mago do Kremlin | Le Mage du Kremlin | 2025 | 152 min. | França, Estados Unidos | Direção: Olivier Assayas | Roteiro: Olivier Assayas, Emmanuel Carrère | Elenco: Paul Dano, Jude Law, Alicia Vikander, Tom Sturridge, Jeffrey Wright, Will Keen.
Distribuição: Imagem Filmes.



