William Wyler, até hoje diretor recordista em indicações ao Oscar (12 com 3 vitórias), rodou a versão clássica do livro O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights), de Emily Brontë. Nesta adaptação, a direção de fotografia (de Gregg Tolland), a trilha musical intensa (de Alfred Newman) e a movimentação de câmera enfatizam o gótico, inclusive confirmando a sugestão sobrenatural deste romance melancólico. Foi a solução que o produtor Samuel Goldwyn encontrou para levar para as telas uma história de amor brutal, marcada por decisões erradas e sentimentos de vingança. Em suma, uma relação de amor e ódio com uma tortura psicológica que não seria bem aceita pelo público acostumado com o filme romântico hollywoodiano.
No filme, essa história trágica é contada em flashback. Durante uma noite de nevasca, um estranho pede abrigo na fazenda de Heathcliff (Laurence Olivier). Instalado num quarto decadente, há muito tempo fechado, o homem ouve a voz de uma mulher chamando o dono da casa. Ao contar isso para Heathcliff, ele sai em disparada para as montanhas, mesmo com o tempo ruim, pois acredita que, finalmente, o fantasma de Cathy (Merle Oberon) voltou para reencontrá-lo. Indagada pelo visitante a respeito dessa situação estranha, a empregada Ellen (Flora Robson) começa a contar o que aconteceu 40 anos atrás.
Entre o bruto e o refinado
O relato começa quando o Sr. Earnshaw (Cecil Kellaway), o pai de Cathy, traz para casa Heathcliff, uma criança cigana que ele decide adotar. Cathy logo se afeiçoa dele, e o filme mostra os dois se divertindo juntos num passeio a cavalo. Porém, o irmão mais velho dela, Hindley, não gosta do recém-chegado, e o molesta sempre que pode. Após a morte do pai, Hindley assume a propriedade, chamada Wuthering Heights, maltratando a todos, principalmente a Heathcliff, que vira um servo da casa. Enquanto isso, o amor entre Cathy e Heathcliff se fortalece, e eles costumam se encontrar nas montanhas para ficar longe dos olhares de Hindley.
Mas, quando Cathy conhece o vizinho rico Edgar Lindon (David Niven) e o modo de vida refinado da família dele, ela fica encantada. Nasce assim um conflito que a divide entre o bruto Heathcliff, que é seu grande amor, mas a levaria a uma vida de pobreza, e o sofisticado Edgar, de quem apenas gosta, mas que lhe proporcionaria uma vida de luxo.
O filme mostra a protagonista dividida. Num momento, humilha Heathcliff, depois pede perdão, para logo em seguida o humilhá-lo novamente. Porém, quando Heathcliff a ouve comentar com Ellen que Edgar a pediu em casamento e que ficar com ele seria uma degradação, o rapaz resolve ir embora. Nesta cena, o diretor William Wyler comprova o seu talento narrativo ao intercalar um plano que mostra que Heathcliff se foi antes de ouvir a frase crucial do filme, “Eu sou Heathcliff”, dita por Ellen.
A decadência
O filme mostra rapidamente Cathy se casando com Edgar e a sua vida na aristocracia. Poderia viver assim até o fim da vida, sem maiores conflitos. Porém, Heathcliff retorna, agora rico e sofisticado. Mas, Cathy o recusa novamente porque já está casada. Então, como vingança, Heathcliff pede Isabella (Geraldine Fitzgerald), a irmã de Edgar, em casamento. Numa tentativa desesperada de impedir que isso aconteça, Cathy deixa evidente para Edgar que ela ainda ama Heathcliff.
O que se segue é apenas desgraça. Heathcliff, agora dono da propriedade Wuthering Heights, se vinga de Hindley, que se tornou um alcoólatra, maltratando-o. Isabella, por sua vez, percebe que Heathcliff nunca a amou e que embarcou num casamento vazio. E, Cathy, abalada psicologicamente pelo arrependimento por ter desprezado o seu verdadeiro amor, adoece. Na cena final, surge a única possível solução para Cathy e Heathcliff: encontrarem-se após a morte.
A direção de William Wyler é soberba, com certeiros movimentos de câmera que enriquecem o filme. Contudo, nem todas as atuações estão à altura. Laurence Olivier parece contido demais, principalmente quando precisa demonstrar a raiva que motiva a sua vingança. Além disso, sua transformação, entre o bruto e o refinado, não parece tão evidente. Quanto a Merle Oberon, a atriz não foi a melhor escolha para este papel, que necessitava de um nome com mais pompa. Os coadjuvantes, porém, entregam excelentes interpretações. David Niven está perfeito como o refinado Edgar. E Geraldine Fitzgerald se destaca acima de todos, na pele da personagem que mais se modifica durante a trama, papel que lhe deu a única indicação ao Oscar de sua carreira.
Um livro além das convenções
Mais importante do que tudo, o que marca O Morro dos Ventos Uivantes de William Wyler é um certo cerceamento de intenções. Não é só Laurence Olivier que está contido, mas a maior parte dos elementos do livro, com exceção do aspecto espiritual. Isso porque o livro, lançado em 1847, trazia características ousadas que não cabiam no engessado cinema de estúdio hollywoodiano da época do filme.
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Ficha técnica:
O Morro dos Ventos Uivantes | Wuthering Heights | 1939 | 104 min. | Estados Unidos | Direção: William Wyler | Roteiro: Charles MacArthur, Ben Hecht | Elenco: Merle Oberon, Laurence Olivier, David Niven, Geraldine Fitzgerald, Flora Robson, Donald Crisp, Leo G. Carroll, Hugh Williams.



