O Morro dos Ventos Uivantes

Poster de "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026)

Título original: Wuthering Heights

Direção: Emerald Fennell

Ano de lançamento: 2026

Data de estreia no Brasil: 12/02/2026

Gênero: ,

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 7/10

A diretor e roteirista Emerald Fennell é a responsável por Bela Vingança (Promising Young Woman, 2020), um dos filmes mais criativos e contundentes com temática #metoo. Diante da ótima recepção dele, que lhe rendeu um Oscar de Melhor Roteiro Original, Fennell talvez tenha concluído que basta chocar o público para chegar ao sucesso. Como provável consequência, esse pensamento a levou ao insuportável Saltburn (2023), no qual busca seguir a visão niilista do cineasta Yorgos Lanthimos. Parecia, então, que sua adaptação do clássico O Morro dos Ventos Uivantes traria à tona o lado mais brutal dessa história de amor e ódio. Afinal, o único livro de Emily Brontë, publicado em 1847, é um romance gótico que trata do amor doentio e do ciúme obsessivo. Adequa-se, portanto, à índole feroz dos dois primeiros filmes de Fennell. No entanto, ela preferiu exaltar a paixão erótica.

Neste seu novo filme, Fennell, reiteradamente, atiça o público trabalhando o ASMR (do inglês Autonomous Sensory Meridian Response, que significa Resposta Sensorial Meridiana Autônoma) reunindo os sons com detalhes filmados com extrema proximidade. A exploração de ruídos (muitas vezes gemidos) e imagens indecifráveis incita o expectador a deduzir que se trata de um ato sexual, para depois revelar que não, que se trata de um enforcamento em praça pública, ou um caramujo visto bem de perto, entre outras coisas. A intenção narrativa talvez seja representar o desejo sexual não consumido – mas sem uma ligação direta com a trama, pois alguns desses trechos acontecem até antes de os protagonistas se conhecerem, ou enquanto eles são crianças, e mesmo depois que já estão fisicamente envolvidos.

Desde crianças

O filme começa com a personagem principal Cathy ainda criança, órfã da mãe que morreu e sob a criação do pai, Sr. Earnshaw, um fazendeiro que aos poucos está se afundando no vício do jogo. Certo dia, ele aparece em casa com um menino que não fala, que ele decide criar porque o viu sendo maltratado na cidade. Cathy lhe dá o nome de Heathcliff. Apesar de ser usado como um criado pela família, Cathy cria uma amizade com ele. Essa relação fica ainda mais forte quando Heathcliff assume a culpa no lugar de Cathy e é espancado pelo Sr. Earnshaw. As cicatrizes desse castigo servem de transição para os personagens adultos.

Os atores que interpretam os protagonistas nesta fase são os australianos Margot Robbie e Jacob Elordi. À primeira vista, temos a falsa impressão de que a atriz é bem mais velha do que ele, mas isso acontece porque ela despontou no cinema há bem mais tempo. Na verdade, a diferença é de apenas sete anos. De qualquer forma o filme releva qualquer diferença e mostra os dois tendo praticamente a mesma idade quando crianças.

Os coadjuvantes

Nesta adaptação, a dama de companhia de Cathy, Nelly (Hong Chau), tem papel essencial na trama. Agindo com segundas intenções, ela faz o possível para afastar Cathy do bronco Heathcliff. Quando surge na área Edgar Linton (Shazad Latif), um nobre e rico vizinho, Nelly vê nele a oportunidade de Cathy mudar de vida. Vale dizer que, a esta altura, o pai de Cathy já está falindo. Bem no final, esta personagem, que parece pertencer a um livro de Jane Austen, se arrependerá de suas artimanhas. A aproximação com o universo de Austen também se revela nos trejeitos de garota mimada de Cathy – em alguns trechos lembrando também Scarlett O’Hara de E o Vento Levou (Gone with the Wind, 1939) – e na afetação do nobre Edgar, fazendo as vezes de Mr. Darcy. Mas, a representação mais caricatural é a de Isabella (Alison Oliver), a irmã de Edgar, que depois surpreende ao mostrar outras camadas.  

Por outro lado, o personagem Hindley, o irmão mais velho de Cathy, que no livro costumava judiar de Heathcliff, não existe. Essa ausência indica uma crucial diferença na vingança do jovem que foge num impulso quando descobre que sua amada Cathy se casará com Linton. Desta vez, Heathcliff apenas compra a propriedade Wuthering Heights do arruinado Sr. Earnshaw, portanto sem aquela raiva rancorosa que está no livro. Nesta adaptação, a vingança é reflexo da desilusão amorosa, que também levará ao final trágico.

O erotismo e o visual

O apelo erótico, além das várias inserções de ASMR e imagens de duplo sentido, surge no violento despertar sexual de Cathy, quando ela flagra os empregados em um ato sadomasoquista. A partir daí, ela compreende que o que sente por Heathcliff não é apenas amor, mas também um incontrolável desejo sexual. Porém, sua consciência (resultante do trabalho de Nelly como grilo falante) sabe que se ela se casar com Heathcliff os dois vão viver na miséria. Seguindo esse raciocínio, a união com Edgar Linton surge como a melhor opção, apesar da ausência do amor.

O direcionamento narrativo escolhido por Emerald Fennell perde a essência do material original e, consequentemente, a sua força. Mas, ela é uma diretora com requintado apuro visual, o que compensa, formalmente, essa perda narrativa. O uso da cor vermelha é uma constante depois do despertar sexual. Ela está no vestido na linda cena em que Cathy se agacha no chão, formando um desenho similar a uma flor (talvez inspirada em Topázio [Topaz, 1969], de Alfred Hitchcock); e na parede vermelha atrás de Heathcliff, em sugestão óbvia do objeto de desejo. O retorno de Heathcliff, transformado em um homem decente, é encenado com mise-en-scène caprichado.

Em relação à cor da parede, também é simbólico o uso da cor da pele de Cathy no seu quarto na mansão Linton, indicando que ela precisa fazer desaparecer os seus sentimentos verdadeiros para aguentar o casamento de fachada. Quando ela corre de vestido branco pela relva verde, submissa à sua decisão de se casar que afastou Heathcliff, a sua tristeza está impregnada na cena.

Menos doentio

Nem todos os recursos estilísticos funcionam. No mínimo duas colagens de trechos são apelativas. E ambas acompanhadas de músicas contemporâneas e não da época da trama – estratégia utilizada por Sofia Coppola em Maria Antonieta (2006) que foi muito imitada posteriormente. Similar liberalidade influencia também o figurino (óculos escuros, o vestido de material sintético). A primeira sequência demonstra o luxo que Cathy encontra ao se casar com Linton, mas ao mesmo tempo revela que ela está triste, usando planos exagerados e repetitivos. A outra colagem aparece no final, com evidente apelo emocional dos bons momentos de amor e um fechamento desnecessário e óbvio que revela que os dois se amavam desde criança. E, deixa de fora a conclusão mais sombria de que Heathcliff se deixou consumir pelo desejo de vingança.

A adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes por Emerald Fennell se afasta bastante do material original. Impacta pelo erotismo e pelo visual, mas a narrativa perde em profundidade psicológica porque não enfatiza o efeito doentio do amor que leva ao ciúme e ao ódio.  

___________________________________________

Ficha técnica:

O Morro dos Ventos Uivantes | Wuthering Heights | 2026 | EUA, Reino Unido | Direção: Emerald Fennell | Roteiro: Emerald Fennell | Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Shazad Latif, Alison Oliver, Martin Clunes, Ewan Mitchell.

Distribuição: Warner Bros.

Trailer:

Onde assistir:
Margot Robbie em "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026)
Margot Robbie em "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026)

Outras críticas:

Rolar para o topo