Frank Darabont sempre obteve êxito ao adaptar Stephen King para as telas. Antes deste O Nevoeiro (um conto que está no livro “Tripulação de Esqueletos”) , ele roteirizou e dirigiu Um Sonho de Liberdade (1994) e À Espera de um Milagre (1999) – que não eram histórias de terror. Seu talento, aliás, não se restringe apenas a adaptações de King, sendo o criador da série de sucesso The Walking Dead (2010-2022).
Em O Nevoeiro, Darabont toma algumas decisões questionáveis. Insere vários fades outs nas transições entre cenas que parecem interrupções para a entrada dos comerciais em exibições na TV. E, no início, quando o protagonista David Drayton (Thomas Jane) e seu filho Billy (Nathan Gamble) chegam ao supermercado, a câmera agitada faz lembrar um reality show.
Mas, esses senões logo são atropelados pelo terror que se instala no enredo sem muitas delongas. Um denso nevoeiro cobre uma pequena cidade no Maine, deixando os seus moradores assustados. Principalmente quando um senhor idoso entra ensanguentado no supermercado gritando assustado que alguma coisa pegou seu amigo. As pessoas lá dentro então fecham as portas para se protegerem. E não demora muito para alguns enormes tentáculos saírem da neblina para atacar alguns personagens na parte de trás do estabelecimento.
Grupos em conflito
A trama não se concentra apenas no suspense e no terror, que aumentam gradativamente até proporções inimagináveis, com criaturas tão estranhas e gigantescas que só caberiam nos piores pesadelos. Enquanto isso, os moradores entram em calorosas discussões sobre esse misterioso acontecimento. Em meio ao numeroso grupo que se refugia no supermercado, alguns despontam como lideranças.
Um deles é o vizinho de David, o prestigiado advogado Brent Norton (Andre Braugher), que convence algumas pessoas de que não existe perigo nenhum no nevoeiro. Brent e esses céticos, então, saem do local protegido, numa cena de suspense intenso.
Quem supera a todos e engaja a maior parte do grupo é a fanática religiosa Mrs. Carmody (Marcia Gay Harden). Antes vista como motivo de chacota, ganha força com seus discursos apocalípticos conforme o perigo se concretiza. Ela será a figura central de uma das imagens mais belas do filme, embora fique na tela por um tempo muito curto. Como uma santa, ela ganha uma auréola acima de sua cabeça. Porém, formada por uma poça de sangue.
Nesse ambiente de atos impulsivos coletivos, sobra para um jovem soldado o risco de linchamento. Visto como o representante das forças militares, as pessoas o consideram parte das experiências que levaram a essa tragédia. A tese que explica o fenômeno envolve a abertura de um portal para um outro universo que permitiu a entrada dessas criaturas horripilantes em nosso mundo.
O terror de Stephen King
A parte final é, de fato, apocalíptica. Cinco personagens seguem David, e partem em um carro pela estrada tomada pelo nevoeiro. A música de fundo, “The Host of Seraphim”, do Dead Can Dance, se encaixa perfeitamente nesse clima bíblico (os serafins são anjos de seis asas, e aqui confirmariam as previsões da religiosa Mrs. Carmody). Produzidos por ótimos efeitos visuais, as colossais criaturas caminham ao redor do veículo desses personagens em fuga. O tamanho delas é de uma proporção tão gigantesca que transcendem o que podemos imaginar. Dão vazão, na verdade, às descrições que só Stephen King consegue criar para esses seres do além.
A conclusão surpreende por sua crueza arrasadora. Não poderia existir uma combinação mais tocante de fé e desesperança. Adaptação magistral, O Nevoeiro transforma em imagens o que Stephen King imaginou em seu livro.
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Ficha técnica:
O Nevoeiro | The Mist | 2007 | 126 min. | EUA | Direção: Frank Darabont | Roteiro: Frank Darabont | Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Andre Braugher, Toby Jones, William Sadler, Jeffrey DeMunn, Frances Sternhagen, Nathan Gamble, Alexa Davalos, Chris Owen.



