Paul Greengrass é um típico diretor de estúdio. Trabalha com orçamentos de médios a grandes executando os projetos conforme contratado. Está por trás de filmes da franquia Jason Bourne e de transposições de tragédias notórias para as telas, como em Domingo Sangrento (2002), 22 de Julho (2018) e Voo United 93 (2006). Seu novo lançamento, O Ônibus Perdido se aproxima destes, mas é mais correto enquadrá-lo dentro do gênero filme catástrofe.
O Ônibus Perdido adapta um dos relatos do livro “Paradise”, de Lizzie Johnson, repórter que cobriu o incêndio florestal mais letal nos Estados Unidos em cem anos. O título do livro é o nome da cidade californiana que foi devastada pelo incêndio de 2018 que ficou conhecido como Camp Fire.
O filme se concentra num ônibus escolar com 22 alunos do ensino fundamental que parte da Ponderosa Elementary School para chegar inicialmente até outra escola a 10 minutos dali, onde os pais estariam esperando. Porém, a estrada bloqueada pelos carros em fuga atrasa o percurso. Quando chegam à escola, ela já está em chamas. Então, o ônibus com o motorista, uma professora e as crianças enfrentam 48 quilômetros tomados pelo fogo.
Matthew McConaughey interpreta Kevin McKay, o motorista angustiado pelo emprego que paga mal, a separação da mulher e o filho de 15 anos que não o suporta (vivido por Levi McConaughey, filho de Mathhew com a brasileira Camila Alves). Além disso, tem que cuidar da mãe (papel da própria mãe do ator também). America Ferreira faz a professora Mary Ludwig.
Quando Kevin chega à escola Ponderosa para buscar os alunos, a professora Mary age com uma tranquilidade exagerada. Ela não quer que as crianças fiquem assustadas. No entanto, a situação é de extrema urgência, e sua morosidade irrita Kevin. Durante a terrível jornada, os dois gradativamente se entendem melhor.
Ausência de dramas pessoais
Essa interação entre Kevin e Mary, embora não traga novidades, é a única dramaturgia que funciona no filme. Já o relacionamento difícil entre Kevin e o filho, que perturba tanto o protagonista, não é trabalhado o suficiente. Há apenas uma cena em que os dois se encontram rapidamente em casa e discutem. O que provocou esse desentendimento não aparece nem em flashback nem nos diálogos. Explica-se apenas que o pai sempre foi ausente. Essa falta de aprofundamento tira o impacto das decisões do personagem principal que provocam atritos dele com a sua chefe. Por isso, a reconciliação final não é nada comovente.
No caso de Mary, então, que vive em harmonia com a sua família, nem há conflitos pessoais. Seu único arrependimento, caso não sobreviva no incêndio, se resume a nunca ter viajado para fora da sua cidade.
Os bombeiros, com exceção do líder, nem são individualizados. E o próprio Chefe Martinez (Yul Vazquez) só ganha um retrato profissional. Nem um detalhe pessoal surge para criar alguma empatia com o público. As crianças também aparecem pouco, sem se concentrar em algumas delas para gerar uma conexão forte com o espectador quando elas estão sofrendo ou em perigo.
A ausência desses dispositivos comuns ao disaster movie prejudicam o envolvimento emocional com o filme. O público certamente ainda torce para que todos se salvem, principalmente as crianças. Porém, elas são percebidas como um coletivo, e não uma a uma. As raras tentativas de chamar algumas pelo nome em situações específicas não são suficientes para esse engajamento individual. Até mesmo com os dois protagonistas se sente um certo anticlímax no desfecho da aventura.
A visão do fogo
Formalmente, o diretor Paul Greengrass realiza um trabalho competente. O uso constante da câmera trêmula se justifica porque o filme inteiro cobre um incêndio devastador. A edição nervosa, composta de vários planos curtos, reforça o clima tenso. Os efeitos visuais se destacam e merecem a indicação ao Oscar 2026 que receberam. Mas, acima de tudo, o que chama mais a atenção é o uso da câmera subjetiva como se fosse o ponto de vista do fogo, que se alastra em alta velocidade ao ser levado pelas rajadas de vento.
O Ônibus Perdido consegue dar uma ideia do que são esses incêndios florestais que apavoram o hemisfério norte, notadamente nos Estados Unidos. É uma calamidade cada vez mais presente nos filmes e nas séries e que servem de alerta para esse efeito funesto do aquecimento global.
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Ficha técnica:
O Ônibus Perdido | The Lost Bus | 2025 | 130 min. | Estados Unidos | Direção: Paul Greengrass | Roteiro: Brad Ingelsby, Paul Greengrass | Elenco: Matthew McConaughey, America Ferrera, Yul Vazquez, Ashlie Atkinson, Levi McConaughey, Kate Wharton.
Distribuição: Apple TV+.



