Enquanto Christopher Nolan finaliza sua superprodução épica baseada na “Odisseia” de Homero, chega aos cinemas brasileiros, em 4 de setembro, o filme O Retorno, de Uberto Pasolini, que conta a parte final dessa jornada. O título, intencionalmente, não escancara a adaptação – caso contrário, poderia se chamar “O Retorno de Odisseu”. Tal opção está em sintonia com a abordagem escolhida, que evita as incursões fantásticas e insere humanidade em todos os personagens.
Após a vitória na Guerra de Troia, os guerreiros gregos liderados por Odisseu (Ralph Fiennes) retornam para casa. A longa ausência, porém, resultou em caos na ilha de Ítaca. Os poderosos disputam a mão da rainha Penélope (Juliette Binoche), mas esta tenta postergar a sua escolha alegando que aguarda o retorno do rei. Mas, o próprio filho deles, Telêmaco (Christopher Plummer), que mal conheceu o pai, perdeu as esperanças de encontrá-lo.
Odisseu sobrevive a um naufrágio, mas chega desacordado na praia de Ítaca, onde recebe a ajuda de seu escravo Eumeu (Claudio Santamaria), que não o reconhece. Ninguém na ilha, aliás, desconfia que esse mendigo é o rei, exceto Euricleia (Ângela Molina), a aia de Penélope. Mantendo-se incógnito, Odisseu pode observar com isenção qual é a situação do seu reino após duas décadas de ausência (dez anos de guerra e dez da viagem de volta).
A batalha interna
O filme enfatiza as dores na consciência de Odisseu. Grande parte dela causada pela sua decepção por ter sacrificado tanto tempo e tantas vidas na guerra, para retornar e ver sua terra dominada por selvagens que disputam a sua vaga sem valorizar os que lutaram por eles. Como contraponto favorável, testemunha a lealdade da esposa, cujo maior temor seria descobrir que o rei vive confortavelmente em outras terras. O desfecho revela uma outra camada nesse drama, o da violência como a solução para os conflitos.
Ao optar por filmar em locações naturais, num cenário sem nenhuma pompa e vestimentas paupérrimas, mesmo para os que seriam os nobres, Uberto Pasolini toca numa naturalidade que encaminha para a essência humana dos personagens. Através das estupendas interpretações de Ralph Fiennes e Juliette Binoche (que já atuaram juntos em O Morro dos Ventos Uivantes, de 1992), em especial na cena em que os dois se reencontram pela primeira vez e deixam dúvidas se ela o reconheceu, O Retorno escancara como a guerra transformou Odisseu, bem como a ganância das pessoas aproveitadoras.
O absorvente drama psicológico predomina no filme. Porém, os trechos de ação não só existem como são bem filmados. Envolvem uma perseguição a Telêmaco e o banho de sangue no confronto final entre os pretendentes e Odisseu. Nessa versão mais orgânica da famosa obra de Homero, Pasolini extrai o que provavelmente moveu o autor a criar seu épico fantástico.
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Ficha técnica:
O Retorno | The Return | 2024 | 116 min. | Itália, Grécia, Reino Unido, França | Direção: Uberto Pasolini | Roteiro: John Collee, Edward Bond, Uberto Pasolini | Elenco: Ralph Fiennes, Juliette Binoche, Charlie Plummer, Claudio Santamaria, Roberto Serpi, Chris Corrigan.
Distribuição: O2 Play.



