O Sorveteiro

Título original: Ice Cream Man

Direção: Eli Roth

Ano de lançamento: 2026

Data de estreia no Brasil: 03/09/2026

Gênero: ,

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação:

1.5

/5

O talento do diretor Eli Roth está limitado ao gênero do terror puro, de onde às vezes consegue extrair alguns filmes acima da média como O Albergue (Hostel, 2005) e Feriado Sangrento (Thanksgiving, 2023). Quando desvia de sua especialidade, mesmo dentro do cinema fantástico, fracassa, o que aconteceu em Borderlands (2024), seu lançamento anterior. O seu novo longa, O Sorveteiro, é um filme de terror, mas misturado com comédia – o chamado “terrir”, um híbrido difícil que Eli Roth não conseguiu manejar.

Para começar, os personagens de O Sorveteiro são absolutamente irritantes. Tanto crianças como adultos ficam o tempo todo se provocando, tirando sarro um do outro, e com bullying incluído. Isso vale para Jared, o menino que é o protagonista. A molecada zoa com ele porque ele comete um erro por distração no jogo de beisebol que resulta na derrota do seu time. À noite, a conversa entre ele e sua família (pai [vivido pelo próprio Eli Roth], mãe e irmã adolescente) durante o jantar está repleta de falas tolas e a cena parece interminável. Esse trecho faz o público torcer para que comece logo a matança prometida no trailer do filme.

A hora do sorvete

A trama se passa numa pequena cidade chamada Bayleen Bay. Em certo dia ensolarado, numa praça repleta de crianças, acontece um jogo de beisebol entre times escolares. Um carro de sorvetes estaciona ali e é um sucesso de vendas. Praticamente todas as crianças tomam um sorvete. Jared é uma exceção, por ter intolerância a lactose.

Durante a madrugada, o carro de sorvetes circula pelas ruas e a sua música provoca um transe nas crianças que despertam de seus sonos para atacar violentamente os adultos, começando pelos seus pais. Segue-se uma sucessão de mortes com excesso de gore. Pessoas mutiladas, órgãos à mostra, vísceras espalhadas, enfim, o splatter toma conta do filme. Mas a principal intenção não é chocar ou provocar asco. O contraste entre esse extremismo e o fato de as agressões serem cometidas por crianças constrói uma paródia do terror e, portanto, deveria ser engraçado. Esse fenômeno acontece em A Hora do Mal (Weapons, 2025), quando as crianças saem correndo gritando atrás da bruxa, sequência que O Sorveteiro parece copiar descaradamente em alguns momentos.

Imitação e paródia

Mas, aqui essa violência extrapolada não é engraçada. A quantidade de gore exaure o espectador, porque a criatividade de explorar a variedade de mortes sangrentas não resulta em comédia. No máximo, em curiosidade mórbida. Em breves instantes, o filme indica o que poderia ser uma solução genial para unir terror e humor neste cenário.

Isso acontece quando surge um balãozinho (daqueles de histórias em quadrinhos) ao lado da criança, mostrando o desenho animado de onde ela tirou a ideia para a morte violenta que está praticando. Algumas agressões realmente seguem ideias absurdas que encontramos em cartoons e estas soam tão divertidas como são nos desenhos do Coiote e do Papa-Léguas, do Tom & Jerry, do Pica-Pau etc. Porém, esses momentos mais inspirados duram pouco. Em outra sequência de paródia, o filme imita a cena de Os Pássaros (The Birds, 1963) que antecede o ataque na escola – mas, sem o talento para o suspense de Hitchcock.

Na maior parte do tempo, temos as crianças-zumbis perseguindo Jared e mais duas crianças (Mia e Tommy). Não para matá-los, mas para que tomem o sorvete e virem zumbis também. E fica nisso por tempo demais, sem conseguir criar nenhuma tensão.

Autossabotagem

Alguns acontecimentos soam simplesmente errados. Por exemplo, o fato de a irmã de Jared, que tomou o sorvete, ficar apenas com os braços paralisados e não virar zumbi. O personagem Tommy, do nada, afirma que isso acontece com algumas pessoas, sem que isso tenha nenhum embasamento, porque ninguém mais no filme sofre esse resultado. Nesta mesma sequência, a irmã faz o maior malabarismo para conseguir se levantar da cama e do chão, sendo que apenas os braços estão paralisados. Logo depois, quando ela liga para o ex-namorado para pedir ajuda, o rapaz se surpreende com o relato dos ataques das crianças, quando já foi mostrado antes que a cidadezinha está um caos generalizado, com incêndios por todo lado.

No meio desse filme desastroso, se salva o detalhe de que, desta vez, a igreja não é a salvação, mas a origem de todo mal, contrariando o clichê tradicional. Junto a isso, a motivação por trás do plano do sorveteiro parecia ter uma explicação sólida. No entanto, inacreditavelmente, a surpresa final estraga essa história, provando de uma vez por todas que um plot twist jamais pode determinar o rumo de um enredo.

O Sorveteiro tem alguns estalos de criatividade, mas o filme se sabota o tempo todo e não os aproveita. Nem terror, nem comédia. Ignore a música e deixe o carro do sorvete passar, porque nenhum dos seus sabores agrada.

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Ficha técnica:

O Sorveteiro | Ice Cream Man | 2026 | 106 minutos | Estados Unidos | Direção: Eli Roth | Roteiro: Eli Roth, Noah Belson | Elenco: Ari Millen, Benjamin Byron Davis, Karen Cliche, Dylan Hawco, Sarah Abbott, Shiloh O’Reilly, Kiori Mirza Waldman, Charlie Zeltzer, Charlie Storey.

Distribuição: Diamond Films.

Trailer:

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