O Testamento de Ann Lee

Poster de "O Testamento de Ann Lee"

Título original: The Testament of Ann Lee

Direção: Mona Fastvold

Ano de lançamento: 2025

Data de estreia no Brasil: 12/03/2026

Gênero: ,

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 6/10

O Testamento de Ann Lee retrata a história da fundadora da seita religiosa Shakers, uma ramificação dos Quakers que surgiu na Inglaterra em 1747. Eram conhecidos pela prática do celibato, da defesa da igualdade social e de gênero, na crença de um Deus masculino e feminino, na vida em comunidade onde os resultados do trabalho árduo eram compartilhados. Acima de tudo, o filme enfatiza os cultos compostos por danças e cantorias de adoração marcados por expressões e gritos de êxtase, que assustavam as pessoas a ponto de os chamarem de hereges. Por conta disso, foram perseguidos e duramente penalizados. Vem daí esta abordagem musical e dramática do longa de Mona Fastvold.

Analisando este filme e Um Fascinante Novo Mundo (2020), o anterior dessa diretora norueguesa, se sobressaem algumas características de um cinema autoral. Nos dois longas, as protagonistas são mulheres à frente de seu tempo, que sofrem as consequências por suas ousadias. Ambos filmes de época, um no século 18 e o outro no 19. Junto ao drama, um clima de suspense domina a ambientação, principalmente pelos sons estranhos. Além disso, o ator Christopher Abott está em seus três longas (o outro é O Sonâmbulo [2014]) e o cineasta Brady Corbet (de O Brutalista [2024]) é coautor do roteiro deste e do primeiro longa dela.

A mulher vestida pelo sol

O enredo acompanha a curta vida de Ann Lee (1736-1784), a fundadora e líder dos Shakers. Interpretada com muita garra por Amanda Seyfried, a protagonista nasce em Manchester, onde conhece o casal quaker Wardley (vividos por Stacy Martin e Scott Handy). Eles já praticavam rituais com muita gritaria, portanto, o diferencial da seita de Ann Lee foi mais no aspecto social (principalmente por ela, uma mulher, pregar o culto). A revelação de Ann Lee acontece na prisão, quando ela tem visões sobre Adão e Eva. Sai transformada, e adota o nome Mother Ann. Parte, então, para a América em 1774 a fim de propagar a sua própria seita. Mas, a intolerância religiosa continua a prossegui-la até níveis trágicos.

As coreografias apresentam movimentos e expressões perturbadores, apresentadas já nos créditos iniciais. O primeiro número musical dentro da narrativa, na casa dos Wardley, parecer se apenas uma reprodução dos ritos quakers. Só depois, nos trechos com Ann Lee cantando sozinha na prisão, ou com o personagem John Hocknell (David Cale), que financia a viagem para a América, é que fica definitivamente evidente que se trata de um filme musical, daqueles que as letras fazem parte da narrativa.

Narração sôfrega

Outra característica forte em Um Fascinante Novo Mundo e que se confirma agora também como uma marca do cinema de Mona Fastvold é o uso da narração. Desta vez, a voz que conduz a história é de Mary (Thomasin McKenzie), a jovem seguidora e amiga de Ann Lee. Mas, sendo um dispositivo que a diretora aprecia, seu uso precisa de melhorias. Foi um problema no filme anterior, e volta a ser agora. Aqui, a narração antecipa os fatos por vir, como a morte dos quatro bebês de Ann Lee, que depois aparece no enredo já sem o impacto que deveria ter. E não é só o conteúdo das falas em off, mas também o tom da voz, que faz a narração pouco engajadora.

Além disso, Mona Fastvold busca impactar o público a todo custo. Os partos parecem pertencer a um filme de terror, as cenas de sexo também (porque Ann Lee não gostava de transar). Da mesma forma, a violência com a qual atacam Ann Lee e sua congregação é brutal. Já as danças em êxtase são tão exacerbadas que incomodam. Momentos impressionantes que se justificam pela narrativa, mas que parecem ser necessários para compensar a incapacidade de colocar o público dentro da história.

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Ficha técnica:

O Testamento de Ann Lee | The Testament of Ann Lee | 2025 | 137 min. | Reino Unido, EUA | Direção: Mona Fastvold | Roteiro: Mona Fastvold, Brady Corbet | Elenco: Amanda Seyfried, Lewis Pullman, Thomasin McKenzie, Tim Blake Nelson, Christopher Abbott, Stacy Martin, Matthew Beard, Viola Prettejohn, David Cale.

Distribuição: 20th Century Studios.

Trailer:

Onde assistir:
Amanda Seyfried e Lewis Pullman em "O Testamento de Ann Lee"
Amanda Seyfried e Lewis Pullman em "O Testamento de Ann Lee"

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