Primeiro longa-metragem da cineasta Priscilla Kellen, a animação Papaya impressiona pela sua inventividade criativa. A obra adota a perspectiva inusitada de uma semente de mamão, levando para as telas os seus sentimentos diante dos fenômenos naturais, mas sem se restringir às leis da ciência. Avança para a intervenção humana e ainda evoca a espiritualidade.
No seu início, o espectador não sabe o que verá. Parece estar dentro do solo olhando as partes de uma árvore, mas depois surpreende revelando que pode ser uma mulher, com seus seios a amamentar o filho. Porém, ao se afastar para a visão geral, confirma que, de fato, se trata de uma árvore — e de mamão papaya —, com as suas sementes pretas se alimentando de sua seiva. A afirmação de que a vegetação também tem vida não poderia ser mais explícita.
O filme se concentra em uma dessas sementes pretas, escolhida para ser a protagonista desta história. Ela emite sons como os de um bebê, sem falar palavras, característica que facilita a empatia do espectador. O longa inteiro é como um filme mudo. Não há narração nem diálogos. A comunicação se dá visualmente, com o auxílio da trilha musical e dos efeitos sonoros, que se misturam para definir o tom da cena e para explicar o que acontece nela. A opção pela não verbalidade seduz o público; por isso, é uma escolha errada encerrar o filme com uma canção com letra, explicitando demais uma interpretação que não combina com a liberdade criativa e, consequentemente, receptiva da obra.
Entre a ciência, a fantasia e a crítica humana
Parte do filme funciona como lições lúdicas de ciências. A semente protagonista é filha da árvore, desprende-se do fruto que a envolve e é transportada por pássaros e outras forças naturais. Alimenta-se da água e precisa da terra para criar raízes. Porém, ultrapassa os limites da ilustração científica. As primeiras raízes se locomovem e funcionam como pés e mãos para a semente. Além dessas liberdades fantasiosas que auxiliam a narrativa, o filme entra em terreno místico. Assume-se que uma rede de seivas subterrâneas conecta todas as plantas. E, após terminar o seu ciclo de vida, a semente retorna reencarnada em uma borboleta.
As metáforas ganham um tom crítico sobre as intervenções humanas. A produção agrícola em escala industrial é comparada a um campo de extermínio. Ao humanizar os vegetais, o filme mostra o sofrimento deles, criados em cativeiro para virarem alimento para as pessoas. No lixão da periferia da cidade, baratas e outros insetos vivem em uma festa que lembra o antigo anúncio televisivo da dedetizadora Dddrin. A poluição equivale às drogas, e os bichos escrotos vivem alucinados. Como esperado, um trecho traz os efeitos caleidoscópicos para ilustrar esse entorpecimento.
Papaya, assim, se equilibra entre a ciência e a fantasia, entre o terreno e o espiritual, entre a apreciação e a crítica. Uma jornada de imaginação livre.
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Ficha técnica:
Papaya | 2025 | 74 min. | Brasil | Direção: Priscilla Kellen | Roteiro: Priscilla Kellen, Patrícia Oriolo | Elenco (Vozes): Aretha Garcia, Tulipa Ruiz, Maria Vitória Garcia.
Distribuição: Cajuína e Sessão Vitrine Petrobrás.



