O grupo de super-heróis Quarteto Fantástico, criado por Stan Lee e Jack Kirby, acumula uma série de adaptações frustrantes para a tela. A primeira, de 1994, dirigida por Oley Sassone, é pouco conhecida. A segunda, de Tim Story, foi lançada em 2005 e ganhou uma sequência em 2007, chamada Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado. A última adaptação, até agora, surgiu em 2015, com direção de Josh Trank, e é a pior de todas.
A quinta tentativa, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025), finalmente consegue quebrar esse estigma decepcionante. Assume a direção Matt Shakman, em seu segundo longa, mas com uma extensa experiência em séries, inclusive em Wandavision (2021), que também faz parte da Marvel Studios.
Charme retrô
A genial sacada desta nova produção é a sua deliciosa concepção retrofuturista. Os realizadores imaginaram Quarteto Fantástico: Primeiros Passos num futuro tal como seria pensado no início dos anos 1960, quando os personagens surgiram nas HQs. Assim, o filme adota um visual retrô (repare nas roupas dos cidadãos comuns) com modernidades que ainda hoje não foram inventadas. O estiloso carro voador dos super-heróis é o perfeito exemplo dessa proposta.
Elenco
A escolha do elenco marca outro acerto nesta adaptação. Principalmente, a de Vanessa Kirby para o papel de Sue Storm. Atriz que interpretou papéis dramáticos como a Martha em Pedaços De Uma Mulher (2020), que a revelou, Vanessa Kirby dá substância a esse personagem como mulher e mãe dotada de uma maturidade capaz de proferir um discurso convincente discurso defendendo sua decisão de não sacrificar o seu filho em troca da salvação do planeta Terra.
Ao lado dela, Pedro Pascal vive o seu marido Reed Richards. É outro grande ator que não escorrega para o caricatural ao dar vida ao cientista com raciocínio lógico superdotado, mas incompleto no relacionamento humano.
Ainda dentro do quarteto, Ebon Moss-Bachrach (o Richie da série O Urso) vive Ben Grimm, o melhor amigo de Reed. Um papel difícil, já que passa a maior parte do tempo transformado no Coisa, e cabe à equipe de efeitos visuais permitir que as expressões do ator transpareçam por trás da camada de pedras que cobre o seu corpo. O rápido noticiário televisivo que conta resumidamente como os quatro astronautas viajaram ao espaço e retornaram modificados pela radiação serve para dar um rosto ao personagem, que depois continua na busca de reconhecimento de sua humanidade, apesar de ter conquistado a fama.
Irmão de Sue e cunhado de Reed, Johnny Storm (Joseph Quinn) se aproximou mais de Ben por compartilharem frustrações. No seu caso, porque aos outros membros do Quarteto Fantástico não dão importância às suas opiniões por ser o mais jovem do grupo. Então, nesse filme, ele se esforça para mostrar o seu valor decifrando as mensagens que vieram do espaço e que estão ligados à misteriosa Surfista Prateada.
Novidades e repetições
Aliás, outra modificação importante nesta adaptação é o gênero dessa icônica figura vinda do espaço. À primeira vista, pode parecer uma escolha oportunista, aproveitando a onda do politicamente correto. Mas, a opção vai além disso, e está conectada com a equivalente essência feminina de Sue Storm. Ou seja, de colocar a família em primeiro lugar, característica que faz da Surfista Prateada uma serva do vilão Galactus. Aqui também a escolha da atriz Julia Garner para esse papel garante a força dramática que o papel exige.
O enredo em si não é totalmente original. Grosso modo, repete a trama de Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado. O colossal Galactus precisa saciar a sua imensa fome destruindo planetas, e a Terra é o seu próximo alvo. A Surfista Prateada é forçada a obedecer às suas ordens, caso contrário seu planeta será destruído. Seguindo as ordens dele, ela escolhe a Terra e vem para cá como arauto dessa desgraça. O Quarteto Fantástico, no auge de sua fama como defensores do planeta, recebe a proposta de entregar o recém-nascido bebê de Sue e Reed para Galactus, que poupará a Terra.
Ação em segundo lugar
Diferente da maioria dos filmes de super-heróis, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos traz poucas cenas de ação – de combates mesmo, só no noticiário que explica as origens e no confronto final, quando finalmente os protagonistas utilizam para valer os seus superpoderes. Além disso, o filme também não apela para a profusão de piadinhas tolas que infestam o gênero há mais de uma década, e nem explora o tom sombrio, outra via igualmente muito explorada. O cenário encanta pelo citado retrofuturismo, mas a força da sua narrativa se concentra nos dramas pessoais dos super-heróis.
Mas, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos sucumbe à mania de cenas pós-créditos. A primeira aparece logo após os créditos finais principais, e traz um gancho surpresa para um próximo filme da Marvel. Já o segundo surge ao final de todos os créditos, e é apenas um mimo na linha retrô do filme (uma animação como se fosse a abertura de um seriado antigo do Quarteto Fantástico).
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Ficha técnica:
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos | The Fantastic Four: First Steps | 2025 | 115 min. | EUA | Direção: Matt Shakman | Roteiro: Josh Friedman, Eric Pearson, Jeff Kaplan, Ian Springer | Elenco: Pedro Pascal, Vanessa Kirby, Ebon Moss-Bachrach, Joseph Quinn, Ralph Ineson, Julia Garner, Natasha Lyonne, Paul Walter Hauser, Sarah Niles.
Distribuição: Disney Studios.



