Querido Trópico, quarto longa da diretora panamenha Ana Endara, confronta o espectador com suas várias camadas. O filme prova, assim, que a verdade se encontra sob as aparências.
O jogo de condução do público começa com a protagonista, a enfermeira Ana Maria (Jenny Navarrete), uma imigrante colombiana que vive na Cidade do Panamá. Lentamente, a câmera se aproxima dela enquanto ela olha pela janela do berçário de um hospital. Em seguida, no ônibus, ela coloca a mão em sua barriga. Chegando em casa, conversa com a locadora do seu apartamento, que diz que Ana terá dificuldades por criar uma criança sozinha. Acontece que, um pouco depois, o filme revela que ela só finge a gravidez, amarrando uma falsa barriga no seu corpo.
O centro da trama está no seu novo trabalho como cuidadora de Mercedes (Paulina García), também chamada pelo apelido Mechi. Segundo a filha dela, Jimena (Juliette Roy), sua mãe é uma pessoa difícil, principalmente por conta da demência. De fato, no início, o relacionamento se mantém frio, com uma ou outra rusga acontecendo. Mas, quando Ana Maria derruba por acidente um monte de objetos e cai sentada, Mechi cai na gargalhada, e as duas riem juntas. No fundo, Ana Maria é uma brincalhona e, acima de tudo, vê na cuidadora uma companheira para seus momentos de diversão – ainda que sejam raros. A cena em que ela puxa o guarda-chuvas e expõe as duas a uma chuva torrencial é um primor de delicadeza.
Distanciamento familiar
No entanto, o momento mais dramático acontece na festa de aniversário. O evento expõe o cruel distanciamento da sua família diante de alguns comportamentos incomuns por conta da demência. Ao invés de todos se divertirem junto com ela, optam por olhar para ela como uma pessoa doente. A inevitável morte, filmada em silêncio absoluto, soa menos triste que a festa. E confirma a dureza com a qual a filha Jimena tratava a mãe. Para ela, já não era mais a mãe que estava ali. Mas, Ana Maria sabe que Mechi ainda tinha muita vida dentro de si – só não tinha com quem a aproveitar.
Através das estupendas atuações de Jenny Navarrete e Paulina García, Querido Trópico vai muito além do típico filme edificante sobre um cuidador e sua paciente. Toca em feridas mais profundas, pois, mesmo enferma, Mechi quer aproveitar o que lhe resta de vida. Contudo, a família delegou não só os cuidados médicos, mas também o amor e o carinho.
___________________________________________
Ficha técnica:
Querido Trópico | 2024 | 108 min. | Panamá, Colômbia | Direção: Ana Endara | Roteiro: Ana Endara, Pilar Moreno | Elenco: Paulina Garcia, Jenny Navarrete, Juliette Roy, Syddia Ospina.
Distribuição: Filmes do Estação.



