O ator Zach Cregger ganhou um prestígio imediato quando estreou na direção em Noites Brutais (Barbarian, 2022) e, mais ainda, no seu filme seguinte A Hora do Mal (Weapons, 2025). Novamente dentro do terror, ele agora encara o oitavo longa de live action da franquia Resident Evil.
Seu filme não é uma sequência da saga de seis capítulos estrelada por Milla Jojovich, e nem do mais recente Resident Evil – Bem-vindo a Raccoon City (2021), de Johannes Roberts. Cregger realiza a sua versão, sem se apegar demais ao material original (os jogos). Seu foco está na experiência cinematográfica, apesar que a escalada de situações perigosas e monstros cada vez maiores se assemelha bastante ao universo de qualquer game.
“Depois de Horas” do terror
A trama acompanha um só personagem o tempo todo. O ator Austin Abrams cai como uma luva no papel de Bryan, um entregador de órgãos humanos (profissão coerente com o ritmo alucinante do filme) que aceita um serviço de última hora cujo destino é o hospital de Raccoon City. A fim de humanizar e dar alguma profundidade ao personagem, ele discute ao telefone com a namorada que recentemente descobriu que está grávida.
Bryan é uma pessoa sensata, com boas intenções, mas tem se mete numa série de enrascadas abismais durante essa entrega emergencial. Logo que Bryan pega a pequena estrada, à noite e durante uma nevasca, ele atropela uma mulher que atravessa a pista de repente. O espectador sabe que se trata de uma pessoa infectada e que age como um zumbi. Mas, para Bryan, ela está em estado de choque por causa do acidente e a ajuda. Só mais para frente, quando enfrenta uma criatura cheia de tentáculos, ele percebe que fenômenos estranhos acontecem ali. Assim começa a montanha-russa de infortúnios de Bryan. Aliás, até porque Abrams se parece fisicamente com Griffin Dunne, Resident Evil pode ser chamado de um Depois de Horas (After Hours, 1985) do horror.
A direção do espaço
O diretor Zach Cregger trabalha muito bem o espaço geográfico, elemento de enorme importância nesta narrativa. Já tinha provado isso na sequência em A Hora do Mal quando as crianças perseguem a bruxa. Neste filme, quando Bryan encontra um breve refúgio numa fazenda afastada, as luzes de seu carro e da viatura da polícia que o abordou são vistas de longe, servindo de referência. Assim, quando ele vê a zumbi surgindo na paisagem em disparada na sua direção, é possível ter uma ideia da distância que ela está.
A geografia se mostra ainda mais crucial quando ele chega em Raccoon City. A torre alta do hospital, para onde Bryan deve levar a sua entrega, se destaca na paisagem, enquanto ele dirige pelas ruas acompanhado de dois personagens transitórios (Paul Walter Hauser em participação hilária e uma Kali Reis dura-na-queda). No edifício do hospital, Bryan também tem outra missão: subir até o último andar, enfrentando as criaturas infectadas que surgem no caminho. E a direção continua eficiente em sempre manter a noção do espaço, agora retratando uma trajetória vertical, o que sempre é complicado em se tratando de cinema.
E Cregger prova que, de fato, é um bom diretor. Capricha no visual naquela cena no início, quando Bryan dirige pela estradinha coberta de neve. Na visão subjetiva, consegue retratar o susto e a inevitabilidade do atropelamento. Nos planos objetivos, os faróis do carro iluminam a pista à frente, enquanto atrás está totalmente escuro, o que cria um tom sinistro.
Um emaranhado de partes humanas
O domínio de Cregger aparece nas cenas simples. Por exemplo, quando Bryan descobre que seu carro não funciona porque vários tiros o atingiram, ele descobre quem fez isso apenas olhando para o local onde ele estava há alguns minutos. É o suficiente para ele (e o espectador) concluir quem é o responsável. Não precisa recorrer a nenhum truque barato para comunicar esse fato.
Sobre a escalada de desafios que Bryan enfrenta e que se assemelha à experiência de jogar o game Resident Evil, os monstros feitos de partes humanas emaranhadas se destacam. São criaturas lovecraftianas, grotescas, mais realistas do que nos jogos, porém, ainda bem malucas. Parecem pesadelos. A cena no berçário com recém-nascidos transformados é a mais assustadora do filme, pois dá margem a muito suspense.
Os puristas aficionados dos jogos desta franquia reclamam que Cregger se afastou demais do material original. Porém, a experiência do game, inegavelmente, está no filme. Além de desafios cada vez maiores, a ideia do oponente que o jogador nunca consegue derrotar em definitivo, pois ele sempre retorna, está presente. Cregger ainda surpreende tanto quanto o ataque final das crianças em A Hora do Mal, ao ousar encerrar desta vez com a frustração de não zerar o jogo.
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Ficha técnica:
Resident Evil | Resident Evil | 2026 | 90 min. | Estados Unidos | Direção: Zach Cregger | Roteiro: Zach Cregger, Shay Hatten | Elenco: Austin Abrams, Paul Walter Hauser, Kali Reis, Zach Cherry, Johnno Wilson.
Distribuição: Sony Pictures.



