Após passar pelo circuito comercial, o filme Salve Rosa, também grafado como #SalveRosa, chega agora à Netflix com características típicas das produções dessa empresa de streaming. Possui um tema moderno, antenado com o que acontece, voltado ao público jovem e com uma história bombástica. Parece até que foi desenvolvido com o auxílio de algoritmos. Aliás, a trama lembra bastante Fuja! (Run, 2020), de Aneesh Chaganty, filme produzido pela Netflix.
O enredo adota uma posição crítica contra a exploração de crianças na produção de vídeos para as redes sociais. Para tornar a trama mais interessante – disruptiva, como buscam os executivos da Netflix – se inserem elementos fantásticos e extremos.
Dora (Karine Teles) se muda com a sua filha Rosa (Klara Castanho) para um condomínio de luxo no Rio de Janeiro. O upgrade do padrão de vida é sustentado pela alta receita de monetização do canal de vídeos da menina de 13 anos, que tem milhões de seguidores. Por isso, a vida da garotinha não é nada fácil. Quando não está na escola, onde a mãe leciona, ela precisa sempre gravar novo conteúdo, mesmo que esteja exausta, ou que seja de madrugada.
Além disso, a mãe tem controle total sobre a filha, inclusive monitora tudo o que acontece no celular dela. Mas, tem algo ainda mais sombrio nesse cenário, o que será definitivamente revelado quando Rosa encontra Zoe, uma velha amiga de outra cidade que nasceu no mesmo dia, mês e ano que ela. Não daremos spoilers aqui.
Pouco suspense
A trama, porém, não consegue desenvolver o potencial de suspense dessa premissa. Por exemplo, Dora não revela para a nova vizinha Vera (Indira Nascimento), mãe de Luana (Alana Cabral), colega de classe de Clara, a origem dos recursos financeiros que permitem que ela, como professora, consiga morar nesse condomínio de alto padrão. Consequentemente, Dora fica desconfiada. Na festa de aniversário, Vera invade a cozinha e começa a bisbilhotar às escondidas. A trilha musical é tensa, porém a cena não consegue construir o suspense. Quando Vera a flagra, simplesmente nada acontece.
Em outros trechos esse problema se repete. No mais grave deles, quando Rosa finalmente encontra Zoe, apesar dos movimentos da câmera que giram em torno das duas e da expressão de desespero da protagonista, falta a reação de espanto da amiga. Parece até que ela não percebeu nada de estranho, o que seria inconcebível.
Há ainda algumas decisões erradas por parte da direção de Susanna Lira. A construção da faceta vilanesca da mãe parece exagerada. A dança dela diante do espelho, regozijando-se pelos bens materiais que conseguiu comprar às custas da filha, se alonga demais. Por outro lado, o insaciável desejo sexual dela vira uma distração para a manipulação dos homens para ela conseguir seus objetivos, mais interessante do que as várias cenas de sexo que o filme apresenta. Já num aspecto mais técnico, os planos filmados atrás de objetos no quarto de Rosa, quando ela já está trancada pela mãe, dão a errada impressão de que há uma câmera escondida ali.
O próprio roteiro não sobrevive a um escrutínio mínimo. Mas, Salve Rosa se sustenta pelo seu tema e pela coragem de terminar com um final bem sombrio – na verdade, como o público atual prefere.
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Ficha técnica:
Salve Rosa / #SalveRosa| 2025 | Brasil | Direção: Susanna Lira | Roteiro: Ângela Hirata Fabri | Elenco: Karine Teles, Klara Castanho, Ricardo Teodoro.
Distribuição: Elo Studios.



