Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte

Título original: Teenage Sex and Death at Camp Miasma

Direção: Jane Schoenbrun

Ano de lançamento: 2026

Data de estreia no Brasil: 13/08/2026

Gênero: ,

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação:

3.5

/5

Uma interpretação alternativa para o novo filme de Jane Schoenbrun

Após a original brincadeira com o clichê da câmera subjetiva de um serial killer de slasher, que se revela ser o ponto de vista do ator do filme, Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte entra no terreno comum das paródias desse gênero – no estilo Todo Mundo em Pânico – mostrando exageros de jorros de sangue e mutilações. Durante os créditos iniciais, aparecem as repercussões comerciais do sucesso do filme “Acampamento Miasma” nos anos 1980, que rendeu várias sequências e produtos vendáveis. Depois da abertura, o novo longa de Jane Shoenbrun percorre caminhos tão enigmáticos quanto os de Eu Vi o Brilho da TV (2024), o longa anterior desta cineasta.

A referência é exclusivamente Sexta-Feira 13 (1980), de Sean S. Cunningham. No caso, o slasher que virou franquia se chama “Acampamento Miasma”. A cineasta novata Kris, interpretada por Hannah Einbinder, ganhou a oportunidade de dirigir uma nova sequência para o filme. Entusiasmada, porque ela ama a franquia, Kris consegue agendar uma conversa com Billy, a final girl do filme original vivida aqui por Gillian Anderson. É uma chance rara, pois ela nunca mais atuou e vive reclusa no afastado acampamento que serviu de locação para as filmagens do seu único sucesso.

Na conversa entre as duas, Kris demonstra sua atitude woke, principalmente quanto às questões de orientação sexual, sendo ela mesma queer e em um relacionamento “poli” – ou seja, aberto. Por ser de outra geração, Billy encara esses assuntos sob outra perspectiva, mas tampouco se enquadra em qualquer conservadorismo. Até por isso, provoca a visitante com acenos homoafetivos – por exemplo, com o molho do frango frito.

Além da metalinguagem (Spoilers adiante)

Como em Eu Vi o Brilho da TV, essa questão queer constitui o principal tema do filme. Novamente, sem ser uma bandeira ostentosa. Seus indícios surgem aos poucos, misturados a outros elementos que chamam mais a atenção. Principalmente, a paródia humorística do terror violento exageradamente gore e na ameaça de suspense que nunca se materializa. Quando finalmente desponta, o faz perto da conclusão, desta vez acompanhada de um ato brutal, relacionada ao “me too”, que aconteceu com Billy numa cena do slasher repetida várias vezes no filme de Jane Shoenbrun. E que a sensibilidade de Kris capta sem compreender o que significa.

Nessa cena crucial, o olhar da personagem de Billy tem algo diferente. Na verdade, ela estava se projetando para longe dali, numa tentativa de sublimar o sofrimento de ser abusada pelo ator com quem contracena. Evitando teorias psicanalíticas, o filme prefere mergulhar no fantástico. Aceita-se que o serial killer, Little Death (que tem uma caixa no lugar da cabeça), existe de fato, como uma entidade sobrenatural que vive dentro de um buraco no fundo do lago. E a sua origem tem relação com a projeção de Billy. Portanto, o filme dentro do filme vai além da metalinguagem.

Dessa forma, Billy não ficou traumatizada por perder a sua virgindade num estupro. Isso a fez desistir da carreira de atriz, mas ela seguiu em frente sem problemas em relação ao sexo. Portanto, ela é diferente de Kris, que não consegue se satisfazer quando transa. Como num ritual, Billy recria essa passagem para que Kris se liberte sexualmente. Mas, dessa forma, desperta o Little Death, que aniquila todas as pessoas que Kris conhece, como se cortasse todos os seus laços com a realidade.

À procura de Little Death

Ainda dentro dessa solução fantasiosa, Billy e Kris entram numa loja de conveniência cobertas de sangue. Provavelmente é um simbolismo para o fato de não esconderem que são lésbicas, diante do gerente conservador que torce o nariz. E, compram um carrinho cheio de doces, contrariando a teoria que defende que o açúcar substitui o sexo (pois ambos liberam endorfina e dopamina). Ou seja, elas continuam com esse hábito que já tinham.    

Jane Shoenbrun gosta de procurar uma textura diferenciada. No longa anterior, a cor roxa e a iluminação tendo a televisão como fonte marcaram o visual. Neste seu novo filme, usa ilustrações da natureza como pano de fundo, cria objetos cênicos com motivos sexuais, coloca imagens granuladas para identificar as cenas do filme dos anos 1980. As fitas VHS continuam aparecendo como um fetiche da diretora. Quanto à direção, vale destacar a opção de colocar a câmera virada para o rosto do serial killer enquanto ele provoca a sua carnificina.

Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte é muito mais contundente que Eu Vi o Brilho da TV. Vai fundo no tema queer, que ambos compartilham, mas desta vez acompanhado da dor de um ato sexual não consensual. O fantástico também entra com maior força, desconectando da realidade com a violência do slasher. Até a comédia da paródia funciona – pelo menos quando é original. A conclusão chega com tal choque dramático que faz questionar a alternância de ânimos do filme. Já o simbolismo é claro: Little Death personifica a liberdade sexual que afasta as outras pessoas, eliminando-as de sua vida até restringir a uma reclusão. No fundo, há tristeza nos dois filmes.

Sobre esta interpretação

Este texto traz uma leitura alternativa para o filme, diferente do que outros autores apresentam e que não corresponde à intenção da diretora. Jane Schoenbrun considera que Billy teve seu primeiro orgasmo enquanto filmava a cena de sexo no filme “Acampamento Miasma”. Foi quando ela despertou o Little Death (“la petite mort”: expressão francesa que descreve a sensação de relaxamento intenso ou perda de consciência após o orgasmo) do fundo do lago, numa metáfora para o seu despertar sexual. E Billy agora ajuda a racional Kris a se soltar para sentir esse prazer.

À parte a proposta de Shoenbraun, esta foi a interpretação que me surgiu enquanto assistia ao filme. Pode ter suas inconsistências, como também tem a linha narrativa, que soaria mais conclusiva se fosse um despertar queer de Billy com uma atriz na filmagem do slasher original. Isso evidenciaria a sua disposição em auxiliar Billy a superar o mesmo desafio.

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Ficha técnica:

Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte | Teenage Sex and Death at Camp Miasma | 2026 | Reino Unido, Canadá, EUA | Direção: Jane Schoenbrun | Roteiro: Jane Schoenbrun | Elenco: Hannah Einbinder, Gillian Anderson, Amanda Fix, Arthur Conti, Eva Victor, Zach Cherry, Sarah Sherman, Patrick Fischler, Dylan Baker, Jasmin Savoy Brown, Kevin McDonald, Quintessa Swindell, Jack Haven.

Distribuição: MUBI / Retrato Filmes.

Trailer:

Onde assistir:
Hannah Einbinder e Gillian Anderson em "Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte" (MUBI/Retrato Filmes)

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