James Gray atinge a sua excelência em Tigre de Papel, filme que agrega elementos marcantes de seu cinema autoral: a família como centro da trama, Nova York, ambientação de época, máfia russa, melodrama e excelentes atuações.
A cena de abertura, revisitada durante o longa, lembra o cenário do assassinato de um traidor de Don Corleone em O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola. A paisagem mostra Manhattan ao fundo, vista de um bairro distante, do outro lado do East River — um local deserto, adequado para matar alguém e ocultar o corpo. O World Trade Center ainda está de pé, adiantando o que a cartela confirma: estamos em 1986.
Em seguida, conhecemos a família protagonista. Miles Teller, caracterizado para a época, interpreta Irwin Pearl, um engenheiro que ganha apenas o suficiente para sustentar sua esposa Linda (muito convincente como uma dona de casa) e seus dois filhos — um entrando na fase adulta e o outro ainda adolescente. Adam Driver encarna Gary, o irmão de Irwin. Divorciado, ele é o novo solteirão charmoso e bem-sucedido. Para os sobrinhos, ele é o tio que eles idolatram. Ao chegar à casa de Irwin com o jantar pronto de um restaurante famoso, ele confirma a sua fama de descolado.
Alianças perigosas e a força do melodrama doméstico
A fim de ajudar o irmão a sair dessa vida de orçamento apertado, Gary oferece a Irwin a oportunidade de ser seu parceiro em um negócio de consultoria para uma empresa russa de energia. Mas, logo nos primeiros dias, na ânsia de realizar um bom trabalho, Irwin se intromete demais na operação e coloca a sua família em risco.
O desmoronamento da vida modesta, mas tranquila, da família de Irwin ganha um potente ingrediente melodramático. Linda descobre que está com uma doença terminal. James Gray, que também assina o roteiro do filme, potencializa a emoção porque Linda mantém essa terrível notícia em segredo. No entanto, o espectador conhece essa informação, detalhe que torna ainda mais dolorida a discussão que ela tem com o marido.
Os espelhos passam a simbolizar esse duplo de Linda, que esconde a enfermidade do núcleo familiar e conta apenas para a sua mãe. É de uma delicadeza imensa a gradual translucidez da personagem quando ela se encaminha para a sua cirurgia. Sensação similar surge por não ser revelado o conteúdo do bilhete na cena final.
Sons em vez de música: a tensão dos anos 1980
A família ainda sofre outra morte, quase simultânea. Desta vez, o fato é comunicado quase em segredo, por meio de códigos. Volta à tela aquele local da abertura, agora em uma sequência de ação eletrizante em meio ao matagal. No encerramento, o porta-retratos reforça o elo entre os irmãos, justificando o sacrifício que conserta um erro e evita que exista qualquer suspeita de traição entre consanguíneos. Em um filme de James Gray, a família é o centro de tudo.
A granulação das imagens, aliada ao estilo clássico de direção, aos figurinos, maquiagens e cabelos, e à direção de arte (aqui sem exageros nostálgicos) colocam o longa dentro dos anos 1980. Mas uma ousadia maior é encontrada no uso de sons em substituição à trilha musical: os barulhos ensurdecedores das máquinas de uma fábrica provocam tensão, a estridulação dos grilos cria suspense e o motor do avião no céu abafa o tiro derradeiro.
O termo do título aparece no enredo para ilustrar que a máfia russa só tem aparência de ser perigosa e, no fundo, não faz mal a ninguém. Mas Irwin e Gary descobrem que isso não é verdade. Tigre de Papel, por sua vez, não é apenas o filme de abertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Certamente, coloca-se como um dos melhores desta edição comemorativa, que homenageia com justiça o cineasta nova-iorquino James Gray.
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Ficha técnica:
Tigre de Papel | Paper Tiger | 2026 | 115 min. | Estados Unidos | Direção: James Gray | Roteiro: James Gray | Elenco: Adam Driver, Scarlett Johansson, Miles Teller, Gavin Goudey, Roman Engel, Victor Ptak.
Distribuição: Diamond Films.



