Uma Infância Alemã examina o cenário do fim da Segunda Guerra Mundial na Alemanha, tomando como base o microcosmo da pequena ilha Amrum, situada ao norte, quase na divisa com a Dinamarca. Nesse período crepuscular, o povo alemão está dividido. Há os que ainda idolatram Adolf Hitler e aqueles que se opõem ao nazismo.
O garoto de 12 anos Nanning (Jasper Billerbeck) está entre esses dois polos. O pai foi para o front lutar pela Alemanha e a mãe, Hille (Laura Tonke), repreende o filho quando ele diz que a guerra está por terminar, repetindo o que falou a plantadora de batatas Tessa (Diane Kruger). Dentro da própria casa, a tia Ena (Lisa Hagmeister), irmã de Hille, é contra Hitler, assim como o tio que se mudou para a América e a família de Hermann, o melhor amigo de Nanning. Mas, um outro tio que mora em Amrum é um extremista fascista e, ao que parece, foi ele quem exigiu que Nanning fosse membro da Juventude Hitlerista.
Ainda imaturo, Nanning pende para os dois lados. Trabalha para Tessa em troca de algumas batatas, mas sem querer a denuncia para os militares nazistas. Apesar de sentir empatia por uma menina refugiada, entra na onda do bullying das outras crianças que agridem os poloneses. Mas, ele próprio quase vira alvo de xenofobia, pois não nasceu na ilha, sendo salvo pelo amigo Hermann.
Caráter
A infância do protagonista vai perdendo sua inocência. A guerra deixa de ser apenas uma ideia, quando ele encontra o cadáver de um piloto na praia, já sem os olhos, comidos pelos animais marinhos. Porém, mais chocante ainda será o destino trágico de seu tio após saber da morte de Hitler. A própria vida nessa comunidade afastada tem também sua brutalidade. Nanning aprende a caçar e a limpar um coelho, e a roubar os ovos dos gansos selvagens.
Para Nanning, mais importante que a política, é sua autoimposta missão de conseguir o pão branco com manteiga e mel para a sua mãe, única coisa que a sua mãe quer comer depois de ter um bebê e entrar em depressão. Para isso, se esforça e até se arrisca para conseguir os ingredientes, escassos por causa da guerra. Essa determinação revela o caráter do menino, até então dúbio porque simplesmente seguia as influências ao seu redor.
Outros dois momentos reforçam que o protagonista está amadurecendo como uma pessoa digna. Primeiro, quando quebra a sequência de agressões com os refugiados poloneses, iniciada com o bullying na escola, depois revidada com um roubo, e que poderia expandir para mais violência – simbolizando o processo que leva às guerras. O outro momento acontece quando ele chora. A mãe, revoltada ainda com a morte de Hitler, o repreende porque ele representa a fraqueza que levou à derrota da Alemanha. Mas, na verdade, o espectador, guiado pela direção precisa de Fatih Akin, identifica nesse choro a prova da humanidade de Nanning.
Uma Infância Alemã, assim, parece uma versão mais esperançosa de A Fita Branca (2009), de Michael Haneke, outro microcosmo dessa época na Alemanha.
O filme está na programação do 2º Festival de Cinema Europeu Imovision (23 a 29 de abril de 2026).
___________________________________________
Ficha técnica:
Uma Infância Alemã | Amrum | 2025 | 93 min. | Alemanha | Direção: Fatih Akin | Roteiro: Fatih Akin, Hark Bohm | Elenco: Jasper Billerbeck, Laura Tonke, Lisa Hagmeister, Kian Köppke, Lars Jessen, Detlev Buck, Jan Georg Schütte, Matthias Schweighöfer, Diane Kruger.
Distribuição: Imovision.



