Vestida para Matar e Dublê de Corpo formam uma não-declarada duologia de suspense erótico de Brian De Palma. Dois filmes com forte influência de Hitchcock, respectivamente de Psicose (sem descartar Um Corpo Que Cai pela cena do museu) e de Janela Indiscreta.
Este texto faz uma breve análise sobre Vestida para Matar. A cena de abertura já impacta pelo conteúdo sexual. A câmera se move da sala em direção ao banheiro, fazendo do espectador um voyeur. Angie Dickinson, no papel de Kate Miller, aparece nua, tomando uma ducha, enquanto observa e se excita observando seu marido se barbear em frente à pia. Closes de seus seios e de sua virilha, ambos filmadas com uma dublê de corpo, revelam suas mãos se acariciando. De repente, um homem surge por trás dela, agarrando-a violentamente. As imagens captadas com soft focus, que colocam um toque de névoa na cena, indicam que se trata de um sonho. A sequência seguinte mostra Kate fazendo um sexo rotineiro com o marido na cama, de manhã.
A cena do museu
Numa sessão com seu psiquiatra Dr. Robert Elliot (Michael Caine), Kate fala sobre seu sonho e sua carência sexual, que o marido não consegue saciar. Logo depois, entra a genial sequência do museu. Parece que De Palma pretende homenagear Um Corpo Que Cai, naquela cena em que James Stewart observa Kim Novak num museu. Mas, esta é apenas uma das muitas pistas falsas que o diretor joga para o espectador.
De Palma mostra Kate Miller reparando nos visitantes do local. Em especial, num rapaz que quer apalpar as nádegas de sua namorada, e um homem cortejando uma desconhecida. Quando um estranho se senta ao lado de Kate num banco, começa um jogo velado de flerte. Totalmente em silêncio, após a troca de olhares começa uma perseguição que mistura tensão e sensualidade. Na rua, o homem a atrai para um táxi, onde os dois já começam a se atracar, e depois para o apartamento dele.
Então, a proximidade com Psicose fica evidente. Como a Marion Crane do filme de Hitchcock, Kate Miller se sente culpada – no seu caso, por trair o marido. Será punida violentamente, não num chuveiro, mas num elevador. Além disso, o assassinato surpreende por tirar da trama uma atriz famosa no meio do filme.
Testemunha e suspeita
A eliminação de Angie Dickinson não prejudica a narrativa. No mesmo momento, entra uma outra personagem, igualmente instigante e também fortemente conectada ao sexo. Ela é Liz Blake (Nancy Allen), uma garota de programa que flagra Kate ensanguentada no elevador e ainda vê, de relance no reflexo do espelho, a assassina. Então, ela se torna, ao mesmo tempo, testemunha e suspeita do crime. E, passa a ser perseguida, correndo risco de morte. Mais um momento brilhante, agora envolvendo ação e suspense, surge no filme, na cena de perseguição no metrô.
Para sorte de Liz, o filho adolescente de Kate, Peter (Keith Gordon), é um esperto gênio da eletrônica que resolve investigar o crime por contra própria. Por meio de suas engenhocas, Peter chega à assassina, no tempo certo para salvar Liz. Porém, a identidade dela só é revelada na parte final.
Espaço para maneirismos
De Palma joga sujo para despistar o espectador. Ao usar a tela dividida, recurso recorrente em seu cinema autoral, ele mistura fatos que aconteceram em tempos distintos, assim como faz ao editar outras cenas durante o filme. Sem contar que ele mostra trechos que propositalmente incluem a suspeita e a assassina. Na conclusão, entra uma explicação de um psiquiatra, tal como acontece em Psicose. A motivação da assassina faz sentido, mas obviamente deve ser analisada como um caso isolado, nunca generalizado, sob o risco de cair em preconceitos incabíveis.
Depois da elucidação, ainda entram duas outras cenas. A primeira, no manicômio, termina com uma possibilidade de sequências com a mesma personagem serial killer, como nos filmes slashers. Mas, isso nunca veio a se realizar. A outra leva de volta ao ambiente onírico, denunciado pela volta do soft focus, fechando o ciclo do início do filme.
Vestida para Matar é um filme com uma fluidez enorme. Você começa a assistir e não consegue parar, ficando com a impressão de que a duração é menor do que os seus 104 min. Isso porque possui uma narrativa bem contada e que, no fundo, tem a sua simplicidade. Consciente disso, De Palma aproveita essa característica para exercer seus maneirismos geniais. Nesse sentido, seu grande legado aqui é a cena do museu.
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Ficha técnica:
Vestida para Matar | Dressed to Kill | 1980 | 104 minutos | Estados Unidos | Direção: Brian De Palma | Roteiro: Brian De Palma | Elenco: Michael Caine, Angie Dickinson, Nancy Allen, Keith Gordon, Dennis Franz, David Margulies.
Distribuição: Warner Bros.







