As aparências enganam. E essa característica é exaltada no vídeo de Virgínia Heinzel, a personagem de Bruna Linzmeyer que abre o filme Virtuosas. Com visual impecável, ela faz marketing da sua empresa de treinamento para mulheres virtuosas, que se dedicam à família acima de tudo. O plano geral revela que esse material faz parte da introdução de um evento promovido por Virgínia e atendido exclusivamente por mulheres, que lotam um auditório alugado. Essa cena inicial serve para apresentar o tema (esse grupo ultraconservador de mulheres religiosas) e as protagonistas.
Virgínia sorteia três convites para um treinamento VIP exclusivo chamado Jornada Virtuosa. A única que entra por sorte é Bárbara (Sarah Motta), uma seguidora já convertida. Germina (Maria Galant) compra a participação da mulher que foi sorteada – o motivo será revelado ao longo da história. E, por fim, Lorena (Juliana Lourenção) consegue a participação porque Virgínia tem interesse de contar com ela, a esposa de um deputado, em seu coaching. Outra personagem importante é Gorete (Brisa Marques), assistente de Virgínia.
O filme adota um tom levemente satírico, por conta das personagens no limite do caricatural, cada uma com suas características inconfundíveis. Os exercícios de respiração, nesse sentido, são os trechos mais cômicos. Por outro lado, não há nada de sinistro na primeira metade do filme, exceto por alguns olhares suspeitos de Virgínia em direção a Germina. O grupo VIP se reúne numa bela casa alugada, e as filmagens acontecem, na sua maior parte, durante o dia. A trilha musical transmite tranquilidade.
A bruxa
No primeiro momento em que a música se torna sombria, Germina tira uma foto da casa à noite. O que esse gesto aparentemente inofensivo representa o filme só explica na parte final, quando a trama ganha um detalhe tensionador com uma identidade falsa de uma das protagonistas. Além disso, surge uma paranoia sobre uma suposta bruxa que pode fazer mal ao bebê de Lorena, que ela leva junto no treinamento. A mãe, transtornada por esse perigo, aparece com o rosto deformado quando a câmera a filma atrás do vidro de um copo.
Essa lenda traz para a trama uma tesoura que desencadeia a violência física do filme. O sorriso assustador de Lorena, que já lembrava aquele de Sorria (Smile, 2022, de Parker Finn), antecipa um dos momentos de violência. Mas, apesar do sangue que jorra das vítimas (uma delas é a empregada, que soa autêntica demais em comparação com a construção apresentada pelo elenco principal), falta aqui a brutalidade que marca o gênero terror.
Tudo parece limpo demais. As personagens, o cenário, a iluminação e até o sangue. Como resultado desta escolha da diretora Cíntia Domit Bittar, a sua estreia em longas enfatiza a crítica social aos grupos de mulheres virtuosas que, em nome do conservadorismo, pode condicionar a radicalismos perigosos. Mas, a crítica seria mais contundente e Virtuosas mais assustador se mergulhasse mais fundo no terror.
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Ficha técnica:
Virtuosas | 2025 | 86 min. | Brasil | Direção: Cíntia Domit Bittar | Roteiro: Cíntia Domit Bittar, Fernanda de Capua | Elenco: Bruna Linzmeyer, Juliana Lourenção, Maria Galant, Sarah Motta, Brisa Marques, Gabriel Godoy.
Distribuição: Olhar Filmes e Filmes do Estação.



