Viver a Vida, o terceiro longa (em ordem de data de lançamento) de Jean-Luc Godard, é um drama realista sobre uma mulher que precisa se prostituir para pagar seu aluguel. Conta uma história triste, como indicam os créditos iniciais que mostram Anna Karina em close-up e em perfil tendo a melancólica composição de Michel Legrand ao fundo.
A narrativa é estruturada em 12 capítulos, chamados de quadros (tableaux), que são apresentados em cartelas com termos que resumem cada um deles. O roteiro de Godard se baseia no livro “Où en est la prostitution”, de Marcel Sacotte. O realismo desta publicação escrita por um juiz de instrução da Procuradoria Pública do Sena impregna o filme. O tema, aliás, estava presente também no longa anterior do diretor, Uma Mulher É Uma Mulher (1961), mas numa abordagem rom-com.
Realismo e Nouvelle Vague
O realismo de Godard se nota nas filmagens em locações. As ruas estão no plano até mesmo quando os personagens não. E mesmo ao filmar Anna Karina em um restaurante no alto de um edifício na Champs-Élysées, escolhe um enquadramento no qual a avenida é sempre vista em destaque ao fundo. O estilo moderno da Nouvelle Vague aqui serve a essa finalidade. Nessa mesma cena, a cabeça do homem que conversa com a protagonista em alguns momentos encobre o rosto dela, quando a câmera brevemente pausa o seu movimento pendular.
Godard desafia o cinema clássico na primeira cena do filme, quando mantém fixa a câmera filmando a protagonista de costas, num balcão de um restaurante. O contraplano do marido, com quem ela conversa, igualmente o filma de costas. Em outro momento, a personagem está no cinema e vários minutos de O Martírio de Joana D’Arc (1928), de Carl Dreyer, aparecem dentro deste filme. A cena guarda conexão com a situação dela, mas também serve como homenagem do cinéfilo e crítico da Cahiers du Cinéma.
O enredo também aborda com realismo os problemas comuns que afetam o cotidiano das pessoas. No caso da protagonista Nana Kleinfrankenheim (Anna Karina), depois de se separar do marido, não consegue se sustentar e apela para a prostituição. O processo eventual e gradual do envolvimento de Nana nessa profissão é acompanhado pela leitura de trechos do livro de Marcel Sacotte, que relatam as regras e os costumes da prostituição.
Cinema e literatura
A narração de obra literária surge novamente na parte final do filme. O namorado de Nana lê (a voz é de Godard) trechos de “O Retrato Oval”, de Edgar Allan Poe, que serve de analogia para a situação dela. Nessa cena, ela decide morar com o namorado. Portanto, implicitamente, opta por abandonar a prostituição. Apesar da elipse enorme, fica evidente que o capítulo derradeiro confirma que sair desse meio não é uma opção. Numa briga entre cafetões, onde Nana seria vendida como gado, ela acaba sendo a vítima.
Este final cruel representa a conclusão natural para a história dramática de Viver a Vida. Há apenas um momento de alívio para Nana e o público: a sequência na qual ela dança após se alegrar com a brincadeira de um mímico.
___________________________________________
Ficha técnica:
Viver a Vida | Vivre sa vie: Film en douze tableaux | 1962 | 80 min. | França | Direção: Jean-Luc Godard | Roteiro: Jean-Luc Godard | Elenco: Anna Karina, Sady Rebbot, André S. Labarthe, Guylaine Schlumberger, Gérard Hoffman, Monique Messine, Henri Attal.



