Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out é o terceiro e melhor filme da franquia. Curiosamente, o personagem principal, o detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig), está com um visual diferente. Seus agora compridos cabelos grisalhos e barba desgrenhada combinam com o seu sotaque de americano sulista. A atitude também mudou, e Blanc parece mais debochado. Mas, essa impressão talvez brote do ambiente da trama, que envolve a religião católica, o que dá margem para um contraste divertido, pois o detetive se declara, em tom provocativo, um herege.
Escrito e dirigido novamente por Rian Johnson, Vivo ou Morto continua a replicar a fórmula do filme de mistério, conhecido como whodunit. Assim, acontece um assassinato em um lugar isolado, onde o provável assassino está dentro de um grupo restrito de personagens. Como costuma acontecer, eles são interpretados por atores conhecidos.
Após agredir um colega, o padre Jud Duplenticy (Josh O’Connor) é designado para ser assistente do monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin) em uma pequena vila afastada chamada Chimney Rock. Poucos fiéis frequentam a igreja, e Jud percebe que o grupo que está sempre presente sente medo de Wicks. Formam essa pequena congregação o médico Nat Sharp (Jeremy Renner), a advogada Vera Draven (Kerry Washington), seu filho adotivo Cy (Daryl McCormack), o escritor Lee Ross (Andrew Scott) e a jovem com deficiência de locomoção Simone Vivane (Cailee Spaeny), que espera uma cura milagrosa. Além deles, fazem parte ativa da trama os funcionários da igreja, a responsável administrativa Martha Delacroix (Glenn Close) e o jardineiro Samson Holt (Thomas Haden Church). Quando acontece o crime, a chefe de polícia Geraldine Scott (Mila Kunis) se encarrega do caso.
Mistério e comédia em equilíbrio
Desta vez, esses personagens coadjuvantes não são engraçados. Toda a responsabilidade pelo humor cabe a Blanc, o que justifica que ele assuma um visual e uma atitude mais caricatos neste filme. Tal distinção equilibra o tom, entre o assassinato sombrio (motivado por um passado misterioso) e as piadas do detetive. Os filmes anteriores sofriam pela intensidade cômica, que deixava tudo muito artificial. A mudança não evita, porém, que a solução do crime soe mirabolante demais. Contudo, como o próprio filme brinca com isso (um personagem diz que parece coisa de Scooby-Doo), essa questão é facilmente relevada.
Rian Johnson – que, depois de Star Wars: Os Últimos Jedis (2019), dirigiu e escreveu os três filmes da franquia Knives Out – mostra bom gosto em vários momentos de Vivo ou Morto. Reiteradamente, brinca com sombras e luzes ao filmar a cruz ausente sobre o altar da igreja, sempre com um significado para a narrativa. A iluminação que entra pela janela sobre Benoit Blanc quando ele ameaça revelar a solução também revela um capricho especial. Por outro lado, deixa aparecer uma estranheza na mudança de comportamento do padre interpretado por Josh O’Connor, quando ele irrompe abruptamente e fala agressivamente para o grupo dos fiéis, exigindo que todos respondam as perguntas de Blanc, uma atitude que não combina com o personagem.
Parece que, em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, a franquia de Rian Johnson encontrou o seu equilíbrio ideal. Vale a pena, então, torcer para que produzam novos mistérios para esse renovado Benoit Blanc resolver.
___________________________________________
Ficha técnica:
Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out | Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery | 2020 | 140 min. | EUA | Direção: Rian Johnson | Roteiro: Rian Johnson | Elenco: Daniel Craig, Josh O’Connor, Glenn Close, Josh Brolin, Mila Kunis, Jeremy Renner, Kerry Washington, Andrew Scott, Cailee Spaeny, Daryl McCormack, Thomas Haden Church.
Distribuição: Netflix.



