Ao filmar um documentário sobre meninas pobres na cidade que tinha em 2003 o menor IDH do Brasil, a diretora Eliza Capai evita a armadilha de realizar um filme fofinho e emocionalmente apelativo. A Fabulosa Máquina do Tempo abraça Guaribas, no Piauí, como um símbolo de esperança, mas sem abandonar a visão crítica.
A cidade representou o marco zero do programa Fome Zero. Desde então, evoluiu. As meninas protagonistas do documentário representam o anseio por melhoras, principalmente em sua parte final, quando elas respondem o que querem ser quando crescerem. Uma delas diz simplesmente que quer ser empregada e, mesmo que isso fuja do sonho de um futuro idealizado, é mantido no filme. Na cena final, as meninas retomam o jogo de encenações que perdurou durante o documentário, emulando uma produção cinematográfica, desta vez com elas vestindo a profissão que escolheram.
A mulher sem seu gigante
O filme traz muito desse jogo entre realidade e fantasia. Em alguns trechos, a diretora entrevista as meninas; em outros, elas assumem o posto de entrevistadoras e fazem perguntas às suas mães. A geração anterior explicita o descontentamento pelo papel submisso tradicionalmente imposto às mulheres, que se casam cedo, ainda adolescentes, largam a escola, têm filhos e não podem trabalhar.
As meninas, que agora podem desfrutar de melhores condições de estudo na sua cidade, refutam a ideia de que o “homem é o gigante da mulher”. Não querem se casar cedo, querem estudar e trabalhar. Seguindo a proposta do filme, elas encenam essas situações. Brincam de fazer cinema, com elas mesmas representando os papeis das suas mães nessas situações patriarcais.
Apesar desse viés poético, o documentário não é ingênuo. Há melhorias sociais e econômicas em Guaribas, e certamente em outras cidades semelhantes, mas as crianças ainda estão à mercê de doutrinações religiosas (que as mães elegem como a solução dos seus problemas) e das más influências das redes sociais (as dancinhas com letras maliciosas que as meninas cantam sem entender o que significam).
A Fabulosa Máquina do Tempo estabelece um posicionamento esperançoso, mas crítico. Afirma que as melhorias alcançadas em relação ao passado são concretas, porém, para se alcançar o futuro que essas meninas merecem ainda falta uma educação mais abrangente.
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Ficha técnica:
A Fabulosa Máquina do Tempo | 2026 | 70 min. | Brasil | Direção: Eliza Capai | Roteiro: Eliza Capai, Daniel Grinspum | Elenco: Alice, Ana, Ana Vitoria, Joice, Laiane, Larissa, Laura, Lorenna, Manu, Manuellinha, Safira, Sophia, Thaemmy, Thabata.
Distribuição: Descoloniza Filmes.










