A Fúria

Título original: A Fúria

Direção: Ruy Guerra

Ano de lançamento: 2024

Data de estreia no Brasil: 30/04/2026

Gênero:

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 6/10

Talvez o último filme dirigido por Ruy Guerra (na verdade, codirigido com Luciana Mazzotti), A Fúria encerra também a trilogia do cineasta composta por Os Fuzis (1964) e A Queda (1978).

As cartelas iniciais relembram, ou informam para quem não viu esses filmes, que o protagonista Mário (Nelson Xavier), no início dos anos 60, foi um soldado mandado para o Nordeste para proteger o carregamento de caminhões de alimentos que os camponeses produziam, mas não comiam. Depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou para seu sogro Salatiel (Lima Duarte), um dos empreiteiros das obras do metrô. Nos dois filmes, Mário possui uma sensibilidade que o faz perceber a opressão dos endinheirados sobre a classe trabalhadora.

Conforme explicita a assustadora cena de abertura de A Fúria, Mário foi torturado durante a ditadura. Então, ele ressurge do mundo dos mortos para se vingar contra Salatiel, a quem se opôs no segundo filme, e contra Feijó (Daniel Filho), antigo aliado que o traiu durante a ditadura. Os dois continuam poderosos, e ainda mais perigosos, mandando matar a torto e direito os seus inimigos.

A estética deste terceiro filme está no oposto do realismo das locações dos outros longas da trilogia. Nesse quesito, se aproxima mais do último lançamento de Ruy Guerra, o sensorial Aos Pedaços (2020). Filmado em cenários de estúdio, A Fúria abraça o cinema experimental e o teatro. Luzes e cores fortes, projeções nas paredes, o cenário parece cênico. Mas, a câmera é de cinema, se movimenta, assume planos oblíquos. Personagens odiosos ficam distorcidos em closes por causa da lente que foi usada, como o militar que se vangloria das torturas que praticou.

O Brasil de agora

Além da conclusão da jornada de Mário, A Fúria se volta também para a situação política do Brasil atual. O deputado Feijó combate uma CPI das terras indígenas que Salatiel explora. O rival dele é Petra (Grace Passô), deputada que defende as minorias e que almeja a Câmara dos Deputados. A cartela final, uma dedicação a Marielle Franco indica qual foi a inspiração da personagem Petra.

Outra figura política real está ainda mais evidente no filme: Bolsonaro, retratado no personagem do presidente com a sua fisionomia que lidera uma motosseata que provoca um caos em São Paulo e depois sofre um atentado falso. Essas representações são menos interessantes que a trajetória de Mário. Porém, sempre um cineasta politizado, o moçambicano Ruy Guerra provavelmente precisou canalizar no cinema a sua angústia pelos rumos atuais do país que o adotou. Daí veio esse seu (possível) derradeiro protesto raivoso.

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Ficha técnica:

A Fúria | 2024 | 101 min, | Brasil | Direção: Ruy Guerra | Roteiro: Leandro Saraiva, Pedro Freire, Ruy Guerra, Luciana Mazzotti | Elenco: Ricardo Blat, Lima Duarte, Daniel Filho, Grace Passô, Simone Spoladore, Paulo César Pereio, Lux Nègre.

Distribuição: Pandora Filmes.

Trailer:

Cena de "A Fúria" (divulgação/Pandora)

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