Primeiro longa ficcional da diretora americana Charlotte Glynn, A Ginasta revela-se um melodrama consistente sobre amadurecimento. O filme aborda esse tema por meio do esporte, conectando-o diretamente ao relacionamento familiar.
A jovem Monica coloca a ginástica artística no centro de sua vida. Ela frequenta a escola de ensino médio por obrigação; por isso, não tem amigos ali e sofre um pouco de bullying. Todos os dias, assim que o horário das aulas termina, ela se apressa para pegar o ônibus que a leva para o treino. É no ginásio que Monica se dedica arduamente, além de desfrutar de uma boa amizade e de uma relação quase maternal com a treinadora. Afinal de contas, sua mãe biológica a abandonou quando ela era criança, e a jovem sempre foi criada pelo pai, Rich.
Interpretado pelo experiente Ethan Embry, Rich apoia a filha na carreira esportiva na medida certa — sem o clichê do pai exigente demais, como vimos em King Richard: Criando Campeãs (2021). De fato, ele é um ótimo pai, mas tem o problema de ser tão mulherengo que provoca uma situação constrangedora ao levar uma parceira para casa.
O Ponto de Virada e a Crise
O incidente que muda esse panorama estável não demora a aparecer: Monica lesiona gravemente o joelho. Ela passa por uma cirurgia, e o processo de recuperação a impede de participar da competição para a qual treinara tanto. Mais do que isso, a lesão retira o seu sentido de viver, pois o esporte era sua maior prioridade. Com a rotina quebrada, ela perde a disciplina (começa a consumir junk food, a beber e até a usar drogas) e se envolve com colegas de conduta duvidosa.
A atriz Britney Wheeler, que possui habilidades reais de ginasta, faz uma excelente estreia em um difícil papel protagonista. De esportista disciplinada, a personagem cai em uma vida desregrada e sem perspectivas. O talento promissor de Wheeler, que se parece fisicamente com Milla Jovovich, destaca-se em vários momentos, em especial no desabafo com a sua treinadora. O enredo se encerra com o fim de uma fase, deixando em aberto qual rumo a protagonista tomará dali em diante.
Contexto Temporal
Charlotte Glynn, que confessou em entrevista ao Leitura Fílmica ter inserido nesse filme elementos pessoais de sua vivência (principalmente em relação ao pai), confirma o que o espectador deduz enquanto assiste à obra: a trama se passa nos anos 1990. As cartas que chegam à casa dela, a ausência de telefones celulares e a própria granulação da fotografia são os fatores que denunciam a época.
Ou seja, aqui a reconstituição de época não é o centro da produção. Não há um excesso de objetos de cena ou de músicas famosas para a caracterização temporal, expediente que muitas vezes evoca uma nostalgia sufocante. O melodrama sobressai-se como o centro da narrativa desta breve jornada de amadurecimento, que vale a pena conferir na programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
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Ficha técnica:
A Ginasta | The Gymnast | 2026 | EUA | 84 min. | Direção: Charlotte Glynn | Roteiro: Charlotte Glynn | Elenco: Ethan Embry, Britney Wheeler, Margarita Levieva, Will River.
Entrevista com Charlotte Glynn:



