O título já avisa. No lugar de um otimista “sempre haverá um amanhã”, o que move este filme é um desesperançoso A Noite Sempre Chega. Por trás da trama criminal, um tom melodramático domina a narrativa que se passa durante uma noite na vida de Lynette (Vanessa Kirby). O cenário, enfatizado pelas notícias nas rádios, revela um dos lados mais brutais do capitalismo, o despejo, que obriga muitas pessoas a serem moradores de rua. E, depois que a sua mãe, Doreen (Jennifer Jason Leigh), gasta os 25 mil dólares, necessários para a entrada no empréstimo que manteria a casa onde moram, para comprar um carro, Lynette tem apenas uma noite para levantar esse valor e evitar que a família (que inclui também o irmão mais velho com Síndrome de Down, Kenny [Zack Gottsagen]) seja despejada.
Lynette ganha a vida em subempregos e em eventuais programas com homens ricos. E um dos primeiros passos nessa busca por dinheiro é pedir um empréstimo para Scott (Randall Park). Diante da recusa que define claramente a relação entre os dois de cliente e prestadora de serviço, e um descuido da parte dele, ela toma sua primeira decisão precipitada dessa noite que a levará a cometer um crime atrás do outro.
Dog eat dog
O filme mostra que, neste ambiente de desesperados, o que vale é a lei da selva, ou o “dog eat dog”. A trama parte daí para surpreender o espectador, e muitas vezes consegue, com os atos tanto de Lynette quando das pessoas ao seu redor. A protagonista inicia cada etapa dessa jornada com uma intenção boa (pedir empréstimo) ou quase isso, mas acaba, no final, optando por um caminho extremo e perigoso. Nesse processo, o único trecho que parece pouco convincente surge quando ela entra numa discussão com Tommy (Michael Kelly), o homem que a aliciou aos 16 anos. A informação é essencial para entender o passado da personagem, mas poderia aparecer em uma solução que se encaixasse melhor na ação.
A parte final reserva uma virada, não na trama, mas na percepção do público em relação à personagem principal. Pela primeira vez, a perspectiva não é da protagonista, mas da mãe. E, então, abre-se um convite para avaliar melhor quem de fato ajuda ou atrapalha a família. A mãe, que carregou a família nas costas após o pai abandoná-los, ou a filha aventureira que apostou em caminhos arriscados e se deu mal. A separação entre elas fica estampada na arquitetura da casa, na parede que as divide em lados opostos do quadro.
O diretor Benjamin Caron reforça neste filme o apuro visual que demonstrou em seu longa Sharper (2023). Desta vez, em closes extremos que deixam de fora do quadro as partes superiores e inferiores o rosto de Vanessa Kirby, para transmitir a ideia de que ela está presa numa situação sem alternativas. Na habitual cena do vômito de nervoso, o destaque vai para o reflexo na água do letreiro do restaurante, também simbolizando que tudo está virado na vida da personagem.
A condução do espectador
Apesar de colocar a protagonista em repetidas situações extremas nas quais ela toma as decisões erradas que levam ao crime, A Noite Sempre Chega consegue surpreender porque o espectador acredita que ela é a pessoa que faz tudo pela família, enquanto a mãe é uma egoísta. Essa linha, por mais tênue que seja, mantém a tensão do filme até o final, quando quebra essa expectativa criada pelas primeiras cenas. O diretor Benjamin Caron obtém, assim, o êxito na condução do espectador tão valorizado por Alfred Hitchcock.
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Ficha técnica:
A Noite Sempre Chega | Night Always Comes | 2025 | 108 min. | EUA, Reino Unido | Direção: Benjamin Caron | Roteiro: Sarah Conradt | Elenco: Vanessa Kirby, Zack Gottsagen, Jennifer Jason Leigh, Jennifer Lanier, Stephan James, Randall Park, Julia Fox, Michael Kelly, Eli Roth, Jake McDorman.
Distribuição: Netflix.



