O prolífico, mas irregular, diretor Renny Harlin acaba de encerrar a sua trilogia Os Estranhos e já conta com um novo lançamento nos cinemas. Águas Mortais é metade filme catástrofe, metade filme de tubarão. Ou seja, quase uma combinação de seus longas Duro de Matar 2 (Die Hard 2, 1990), que se passa num aeroporto, e Do Fundo do Mar (Deep Blue Sea, 1999). Essa premissa é basicamente a mesma de Desespero Profundo (No Way Up, 2024), de Claudio Fäh. Mas, o filme de Renny Harlin é bem superior.
A primeira parte trabalha bem a fórmula do chamado disaster movie. Começa apresentando os personagens em destaque dentro do avião que sofrerá um acidente. Alguns são detestáveis, outros adoráveis. O expoente máximo do primeiro grupo é um homem egoísta, que ignora a civilidade e todas as regras, sendo, por isso, o responsável pela tragédia aérea. O piloto é um veterano interpretado por Ben Kingsley, que não tem culpa pelo acidente, mas se mostra menos cauteloso que o copiloto vivido por Aaron Eckhart, o verdadeiro protagonista do filme.
A sequência do desastre aéreo é muito boa. Os eventos acontecem com um impacto contundente, sem concessões. Por isso, parecem realistas, pela brutalidade que não leva para o tom da violência exagerada daquela cena em Socorro! (Send Help, 2026), de Sam Raimi. A escolha pela música triste durante a queda desconcerta pela inesperada lembrança da inevitabilidade da morte.
O avião tenta descer no oceano, mas acerta uma área de recifes. Um plano geral revela o resultado terrível: o avião espalhado em diferentes partes pelo mar. O ponto de vista de um passageiro sobrevivente leva a um giro da câmera que revela a assustadora constatação de que esse setor da aeronave está na posição vertical.
Filme de tubarão
Começa, então, o filme de tubarão. Alguns sobreviventes precisam dar um jeito de se transferir para a parte do avião mais estável, mas descobrem que o mar está repleto de tubarões. Portanto, inevitavelmente, precisam se arriscar nas águas – aqueles com melhor sorte podem usar botes salva-vidas.
Neste segmento, percebe-se que alguns personagens não foram apresentados na parte inicial. Provavelmente, foram descartados na edição final. Essa ausência prejudica o envolvimento, pois o espectador não sabe nada sobre alguns dos passageiros que lutam para sobreviver. Mas, mesmo para aqueles personagens secundários, o arco soa bem simplista (por exemplo, os jovens desafetos que acabam se ajudando).
O que não poderia faltar é a punição para aquele homem detestável. E, quando isso acontece, um outro personagem esboça um sorriso de satisfação em seu rosto. O desfecho reserva dramas consistentes para os personagens principais. Em especial, o do copiloto, que finalmente se reconcilia com a triste situação do seu filho pequeno.
Contudo, essa parte do filme de tubarão é inferior ao segmento do filme-catástrofe. A tensão envolvendo a ameaça dos predadores mereceria um desenvolvimento mais forte. Mais visões subjetivas dos tubarões e mais detalhes de violência gráfica poderiam ter ajudado nesse sentido. A quantidade de sobreviventes também prejudica a intensidade dramática. Além disso, o uso de muitas elipses deixa a impressão de que eles conseguem resolver seus desafios com facilidade – por exemplo, o copiloto e a menina Cora chegando na parte do meio do avião. Por outro lado, o uso de efeitos práticos inclui uma camada de emoção às cenas de ação.
Águas Mortais é o primeiro lançamento da Simmons/Hamilton Productions, empresa de Gene Simmons, do Kiss, e de Gary Hamilton, presidente da Arclight Films. Um bom filme de tubarão, melhor ainda como filme catástrofe, e um acerto na errática carreira de Renny Harlin.
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Ficha técnica:
Águas Mortais | Deep Water | 2026 | 110 min. | Espanha, Nova Zelândia, Estados Unidos, China | Direção: Renny Harlin | Roteiro: Pete Bridges, John Kim, Shayne Armstrong, S.P. Krause, Damien Power, Dan Luo | Elenco: Aaron Eckhart, Ben Kingsley, Angus Sampson, Lucy Barrett, Richard Crouchley, Molly Belle Wright, Wenhan Li, Rosie Simei Zhao, Nashi, Lakota Johnson, Mark Hadlow, Rarmian Newton, Madeleine West, Rob Kipa-Williams, Kelly Gale.
Distribuição: Diamond Films Brasil.










