Após estrear em longas-metragens com Dark Star (1974), seu projeto da faculdade, John Carpenter realizou o seu primeiro filme como diretor profissional. Assalto ao 13º DP se inspira na ideia da cadeia sitiada de Onde Começa o Inferno (Rio Bravo, 1959), de Howard Hawks. Carpenter reimagina essa situação nos dias atuais (os anos 1970, quando foi filmado), numa delegacia de polícia num bairro periférico de Los Angeles.
Enquanto Dark Star reverbera a Nova Hollywood no seu teor crítico contra o governo americano, Assalto à 13º DP se concentra na violência que impregna o país como herança da Guerra do Vietnã. Já na abertura, uma gangue multirracional, armada com rifles, é encurralada e fuzilada por policiais num gueto no sul de Los Angeles. Carpenter filma com a câmera na mão nos planos que acompanham a gangue e com a câmera fixa nos rápidos planos com os rifles dos policiais atirando, criando um contraste entre a mobilidade fugidia dos bandidos com a rigidez da lei. Na sequência seguinte, quatro líderes de gangues fazem um juramento de sangue pela vingança pelos seis membros mortos.
O roteiro, do próprio John Carpenter, dedica bastante tempo para apresentar os protagonistas. O primeiro é o Tenente Ethan Bishop, que mora na tranquila região oeste de Los Angeles. A caminho de seu trabalho, ele recebe a missão de supervisionar o fechamento da delegacia de Anderson, a 13ª DP, durante uma noite. O filme acompanha, em paralelo, a transferência de três condenados de um presídio a outro. Entre eles, Napoleon Wilson, que entra em cena com um movimento de câmera em sua direção que lembra a apresentação de John Wayne em No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939), de John Ford – vivendo um personagem procurado pela lei. O outro presidiário que ganhará protagonismo se chama Wells.
O cerco
Uma terceira linha narrativa cria um gatilho extremamente brutal que levará ao cerco da delegacia. Aqueles líderes de gangues que juraram vingança rodam de carro pelo bairro com o sangue nos olhos. Quando resolvem assaltar uma van que vende sorvetes, assassinam friamente o vendedor. E, também, uma menina singela de uns oito anos (interpretada por Kim Richards, atriz infantil que fez A Montanha Enfeitiçada [1975] e participou do programa Disneyland, certamente escolhida para aumentar a sensação de singeleza) que o filme já vinha acompanhando e que teve a má sorte de retornar à van para trocar o seu sorvete. Uma morte chocante, que pega o espectador de surpresa. Mas, essencial para enfatizar o mal-estar daquela década, e justificar a retaliação do pai, que mata um dos membros da gangue. Como consequência, ele é perseguido e atrai os bandidos para a 13ª DP, onde ele se refugia.
Enquanto isso, no ônibus que transporta os prisioneiros, o terceiro preso começa a passar mal de tão doente. Eles, então, fazem uma parada no 13º DP. Mas, logo a delegacia se transforma no alvo de várias gangues que querem se vingar pelos companheiros mortos pela polícia. Dezenas de integrantes atacam o local, todos fortemente armados. Após as primeiras investidas, restam apenas o Tenente Bishop, a secretária da delegacia, Leigh, os dois presidiários Wilson e Wells, sem contar o pai da menina, que está em choque. Esse pequeno grupo, então, tenta resistir à invasão das gangues. Em oposição às personalidades distintamente definidas desses protagonistas – que são as pessoas que mais merecem sobreviver, entre todas no filme – os membros da gangue são indistinguíveis entre si, com o cuidado de destacar que eles são brancos, latinos, negros e asiáticos.
O perigo mora ao lado
Carpenter não economiza na saraivada de tiros contra a delegacia, que estilhaçam os vidros e atingem as paredes e os móveis. Curiosamente, os atiradores usam silenciadores, evitando uma barulheira sem fim e abrindo espaço sonoro para a música eletrônica composta pelo próprio diretor (e que se tornaria uma das suas marcas autorais).
A conclusão apresenta uma solução simplista para a resistência dos protagonistas, que não dispensa a chegada de reforços policiais no momento crucial. Mas, isso não ofusca a tensão que o filme mantém durante todo o tempo, desde que assustou o público ao mostrar, com o assassinato da garotinha, que a violência está muito próxima de todos – ideia que John Carpenter continuará a explorar em Halloween (1978).
___________________________________________
Ficha técnica:
Assalto à 13º DP | Assault on Precinct 13 | 1976 | 91 min. | Estados Unidos | Direção: John Carpenter | Roteiro: John Carpenter | Elenco: Austin Stoker, Darwin Joston, Laurie Zimmer, Martin West, Tony Burton, Charles Cyphers, Nancy Loomis, Kim Richards.



