Em dezembro de 2025, Randy Greenberg, professor da UCLA, afirmou que o próximo grande conteúdo (propriedade intelectual) para Hollywood não virá de livros, mas das redes sociais, criado pelos usuários (fãs). O filme Backrooms é um exemplo dessa proposição. O longa se baseia na websérie criada em 2022 por Kane Pixels, pseudônimo do diretor Kane Parsons no Youtube, com base em uma creepypasta anonimamente publicada no fórum 4chan três anos antes. Sua história se passa em 1990 no Vale do Silício e lida com found footage, teoria da conspiração, universo paralelo, terror psicológico, sobrenatural. Essas hipóteses não podem todas coexistir, e a interpretação fica a critério do espectador.
O filme abre com uma sequência de found footage. Câmera subjetiva gravando em equipamento VHS num ambiente vazio com cores amarelas que lembram móveis brancos que ficaram muito tempo expostos ao sol. O carpete que cobre todo o piso, no mesmo tom amarelado, reforça a sensação de um lugar há muito tempo fechado. A imersão no cinema funciona – dá quase para sentir o cheiro de mofo do local. Mas, o incômodo sufoca a um ponto quase insuportável. Ainda bem que após esse flash forward, o filme permite outros ambientes.
Em locações e cenários comuns, conhecemos Clark (Chiwetel Ejiofor) e sua psicanalista Mary (Renata Reinsve). A sessão revela o alcoolismo de Clark e seu relacionamento conflituoso com a esposa. Por causa das brigas em casa, ele vai dormir no subsolo de sua loja de móveis. Lá, ele encontra uma passagem secreta através da parede que o leva a uma extensa área sem fim de salas de escritório vazias. Com uma sombria trilha musical de fundo, ele explora o local, encontrando objetos de sua realidade em versão espelhada (a placa de trânsito “stop” está ali como “pots”).
O onírico materializado
Em muitos trechos, a arquitetura não faz nenhum sentido. Rampas e paredes inclinadas lembram o cenário expressionista de O Gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene. A comparação não é casual, visto que o filme provoca no público a sensação de um pesadelo terrível, povoado por versões distorcidas das aflições da vida real. O diretor Kane Parsons, pelo jeito, atinge o espectador por ter uma sensibilidade universal em relação a materializar o onírico das pessoas. Nesse processo, os personagens percorrem rampas e escadas que desrespeitam as leis da física (como nas obras do artista M. C. Escher) e da proporção de tamanho, enfrentam criaturas bizarras e assustadoras, entram em loops sem fim. E, quando estão finalmente perto de descobrir a verdade, elas acordam e o sonho acaba – ou, no caso, o filme termina.
Backrooms não permite nenhuma conclusão definitiva. A hipótese de tudo ser um pesadelo perde força porque outros personagens também embarcam nesse ambiente. A assistente da loja, Kat (Lukita Maxwell) é meio que forçada a acompanhar o seu chefe e o seu namorado Bobby (Finn Bennett), aquele que leva a câmera de vídeo. A psiquiatra Mary, a princípio descrente do relato do seu paciente, se arrisca a testar a verdade. É justamente ela que vai até as últimas consequências, encarando as ameaças até se ver frente a frente com um outro visitante (vivido por Mark Duplass), que está há mais tempo ali e pode ou não desvendar o mistério para ela.
O impacto do pesadelo insolúvel
Backrooms consegue provocar a sensação sufocante desse lugar surreal. Nas cenas com câmera subjetiva, se torna uma experiência nauseante. Ao assumir a perspectiva objetiva, se aproxima do terror fantástico (seja ele de origem psicológica ou sobrenatural) e funciona melhor. Mas, no meio disso tem momentos desnecessários e longos, como a segunda sessão de terapia, quando Clark conta para Mary o que encontrou. Como o espectador estava junto com ele, seu relato soa repetitivo – o melhor seria apenas mostrar de alguma forma que ela não acreditou nele.
A parte final também parece meio tola, quando Mary é capturada e interrogada pelo personagem de Mark Duplass. Se ainda fosse revelar a solução, talvez o espectador saísse menos frustrado. Porém, como está, todo esse trecho final não serve para nada. O restante do filme, pelo menos, transmite com força essa experiência angustiante de um pesadelo insolúvel.
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Ficha técnica:
Backrooms: Um Não-Lugar | Backrooms | 2026 | 110 min. | EUA | Direção: Kane Parsons | Roteiro: Will Soodik | Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell, Avan Jogia.
Distribuição: Imagem Filmes.








