O filme Chicas Tristes aborda o difícil tema do estupro com uma autenticidade rara. A vítima, Paula (Darana Álvarez), uma adolescente de 16 anos, perde a virgindade de forma forçada com um colega da natação, no banheiro, durante uma festa. A narrativa adota o ponto de vista de La Maestra (Rocio Guzmán), sua melhor amiga, uma escolha que acrescenta uma camada adicional de drama à história. Por causa dessa opção, o espectador não vê o crime acontecer e apenas imagina o que pode estar afetando Paula.
Há sinais de que algo a perturba, como os planos curtíssimos e o olhar perdido pela janela quando Paula volta da festa com a amiga em um carro por aplicativo. Isso também fica evidente quando ela trava no meio da piscina durante o treino de natação competitiva, em preparação para o Campeonato Pan-Americano Júnior. Por fim, Paula já não consegue conter a dor e cai aos prantos durante um ensaio de dança.
O filme leva em consideração a imaturidade das duas protagonistas adolescentes, perceptível nas brincadeiras quase infantis, nas danças mencionadas e nos primeiros interesses românticos. Mas o que mais define essa inexperiência, em sintonia com a juventude de hoje, é a busca por soluções para os problemas pessoais no Google.
A diretora mexicana Fernanda Tovar estreia em longas-metragens com essa narrativa dramática, construída com atenção à linguagem cinematográfica. Na cena do karaokê, as duas protagonistas aparecem em extremidades opostas do quadro, com os rostos cortados pela metade, sugerindo que uma completa a outra. Em outro momento dramático, o rosto de La Maestra está em primeiro plano, enquanto a imagem refletida de Paula aparece desfocada ao fundo. Quando as duas se drogam, observam a si mesmas em um conjunto de espelhos quebrados.
A água como elemento narrativo
A água é um elemento essencial à narrativa. A piscina inflável no topo do prédio onde uma delas mora se conecta à piscina onde as duas melhores amigas treinam natação, ao lado do colega que cometeu o estupro. As imagens filmadas debaixo d’água, além de belíssimas, combinam-se ao som para colocar o espectador nesse ambiente, no qual Paula e La Maestra podem se isolar do mundo e dos próprios problemas. Aliás, é em uma piscina que se passa a emocionante cena próxima do final, acompanhada por uma tocante trilha orquestral, com o piano em destaque.
A conclusão de Chicas Tristes, que dialoga com a cena de abertura, evidencia que, apesar da experiência traumática, as protagonistas ainda não são plenamente adultas. As atuações são impressionantes, e o naturalismo tão buscado pelo cinema contemporâneo aparece aqui de forma controlada. Ou seja, ele não resulta do uso indiscriminado da câmera na mão, mas de um planejamento cuidadoso da mise-en-scène.
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Ficha técnica
Chicas Tristes | 2026 | 90 min. | México, Espanha e França | Direção: Fernanda Tovar | Roteiro: Fernanda Tovar | Elenco: Rocio Guzmán, Darana Álvarez, Tatsumi Milori, Tomás García Agraz, Mónica del Carmen, Raúl Villegas e Lucio Lemus.
O filme integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.



