O experiente diretor Kevin Macdonald faz o possível para construir um bom filme a partir do fraco roteiro de Corrida Contra o Tempo escrito por Mark Gibson. O enredo parte de uma premissa tola: chefão do crime contrata um assassino para sequestrar o filho da advogada de acusação do caso que pode condená-lo, a fim de forçá-la a assassinar a testemunha-chave do processo. Essa síntese já evidencia que o plano tem tudo para não dar certo, e conforme os detalhes surgem durante a trama, mais isso fica escancarado.
Para começar, a abordagem à advogada Maia, papel de Gal Gadot, acontece em um parque a 8km do hotel onde está a testemunha, enquanto ela faz seu treino diário de corrida. E, ela tem apenas uma hora para percorrer essa distância correndo para chegar a tempo de abordar a testemunha. A contagem regressiva, elemento muito utilizado para criar tensão no cinema, aparece em vários momentos na tela, em cartelas nada sutis. Na jornada, Maia ainda sofre reveses, como ter o seu celular roubado, ser atropelada etc. Por outro lado, parece ter superpoderes ao apostar corrida com o metrô entre duas estações.
Tramas superficiais e a armadilha do plot twist
O roteiro transita entre temas, sem se aprofundar em nenhum. A sequência de montagem da abertura, revelando a imensa quantidade de mensagens trocadas pelo celular entre a população de Londres, enfatiza o quanto estamos expostos diante da ação de um hacker, como faz o assassino contratado em relação a Maia. Essa crítica à tecnologia, porém, não vai muito além disso. Uma outra questão envolve um segredo do passado de Maia, e que coloca em cheque a sua ética, além de provar ao sequestrador de que ela é capaz de matar uma pessoa. Como contraponto, a protagonista entra numa igreja para ter seu momento de fé, enquanto se esconde de alguns policiais que estão atrás dela.
Surpreendentemente, o roteiro guarda uma solução boa para Maia conseguir fugir dessa trama de conspiração. Porém, não acerta em sua apresentação. Ao invés de compartilhar a estratégia da personagem com o espectador, que assim se envolveria na tensão de sua execução, o filme escolhe mantê-la em segredo, soltando apenas pistas que apenas indicam que ela tem um plano. E, no final, revela tudo detalhadamente, como se fosse num livro de mistério. Mas, a troca do suspense pela surpresa, como sempre ensinou o mestre Alfred Hitchcock, não compensa.
Pelo menos, o diretor Kevin Macdonald consegue manter o ritmo ágil, e a curta duração do filme ajuda a manter o espectador sempre interessado. A escalação de Gal Gadot também é um acerto, pois só uma atriz com uma forma física impecável (e que, de quebra, interpretou a Mulher Maravilha) poderia sustentar a credibilidade nessa maratona improvável. Mas, Corrida Contra o Tempo falha em ser um filme de intenso suspense, porque cai na armadilha de apostar no plot twist como grande trunfo.
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Ficha técnica:
Corrida Contra o Tempo | The Runner | 2026 | 84 min. | Reino Unido | Direção: Kevin Macdonald | Roteiro: Mark Gibson | Elenco: Gal Gadot, Damian Lewis, Alfred Enoch, Rory Wilmot.
Distribuição: Prime Video.



