Com uma visão crítica, Cowboy do Asfalto retrata o ambiente country genuíno, porém modernizado para as grandes cidades. O protagonista Bud (John Travolta) simboliza essa transição. Nascido na pequena cidade de Spur, ele se muda para a metrópole Houston, ambas no Texas, para trabalhar numa refinaria de petróleo, repetindo o movimento feito por seu tio Bob (Barry Corbin) anos atrás.
Como o seu tio, Bud não quer abandonar suas raízes de cowboy. Frequentam, junto com a tia Corene (Brooke Alderson), a casa noturna honky-tonk Giley’s, especializada nesse estilo de música e de vida. Além de contar com apresentações ao vivo de músicos tradicionais (em participações especiais no filme), o local tem espaço para as danças e ainda um touro mecânico. Este brinquedo é levado tão a sério quanto os animais nos rodeios, o que dá ensejo ao título do filme, tanto na tradução para lançamento no Brasil quanto no original.
A direção é de James Bridges, também corroteirista, responsável por obras importantes como O Homem Que Eu Escolhi (The Paper Chase, 1973) e Síndrome da China (The China Syndrome, 1979). Seu espírito crítico aguçado não ignora o machismo impregnado nesse cenário country. Assim, logo na primeira noite, os tios de Bud o levam para o Giley’s, e logo facilitam para que ele leve para a cama duas frequentadoras do local.
Ambiente tóxico
Da mesma forma, o romance que sustenta o enredo também enfatiza o machismo, que configura o principal obstáculo para o relacionamento de Bud com Sissy (Debra Winger). A atração entre os dois é imediata, desde a troca de olhares à distância na primeira noite do rapaz no Giley’s. Na segunda noite, eles já dançam e se beijam. Mas, na noite seguinte, uma brincadeira de fazer cócegas descamba num tapa que ele dá no rosto dela. Ela se revolta e vai embora, mas ele vai atrás dela e, quase à força, a pede em casamento.
Sissy faz parte desse ambiente. E, embora reclame da agressão de Bud, aceita o pedido de união. Certamente uma decisão precipitada desses dois apaixonados imaturos. Quando surge um outro machão nesse cenário, o bad boy Wes (Scott Glenn), nasce um jogo de ciúme exacerbado que arruína o matrimônio. Para provocar a esposa, Bud arruma uma amante, Pam (Madolyn Smith), filha de um ricaço da indústria petroleira. Como resposta, Sissy se deixa seduzir por Wes, com quem aprende a montar o touro mecânico, para irritação do seu marido. A princípio, Wes parece ser uma pessoa compreensiva, mas logo revela ser mais abusivo do que Bud. Como sintoma desse ambiente nocivo, Sissy se resigna a ficar com esse novo namorado violento.
James Bridges, pelo jeito, entendia que esse patriarcalismo estava atrelado à ideologia country. Por isso, a única personagem que não aceita essa submissão da mulher ao machismo abusivo é Pam, justamente a única com origens alheias a essa tradição. Seu pai é um industrial, e ela foi criada na cidade grande. Pam é tão sensata que compreende que não faz parte desse mundo, e decide deixar Bud perseguir o amor da vida dele. Mas, alfinetando que ela aceita usá-lo como instrumento de seu prazer.
Sedutor nas aparências
Por outro lado, Bridges parece enxergar esse ambiente country como um meio sedutor. Por isso, os quatro atores principais são belíssimos e quase sempre bem-vestidos, com jeans apertados e chapéus estilosos. Há vários trechos com danças, e as pessoas parecem se divertir muito no Giley’s. Porém, o diretor provoca o espectador a analisar com mais profundidade para, assim, descobrir o machismo tóxico por baixo dessa beleza externa. É como se dissesse que quem quer se aventurar nesse mundo deve fazer como Pam – ou seja, se divertir mas sem se deixar envolver demais.
Cowboy do Asfalto, no entanto, simplifica demais a resolução final. Bud novamente luta com Wes e, diferentemente do que aconteceu no primeiro confronto, desta vez derrota o oponente com facilidade. Aliás, Bridges dirige bem as cenas de dança, usando muitos movimentos de câmera que flutuam na pista, e cortes que colocam o espectador junto aos dançarinos. Porém, não filma bem as cenas de briga, em especial esta última. A reconciliação do casal central também soa excessivamente fácil, assim como o rompimento com Pam. Essa conclusão prejudica um filme que consegue prender o espectador desde o início – tanto pela sedução como pela reflexão.
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Ficha técnica:
Cowboy do Asfalto | Urban Cowboy | 1980 | 132 min. | Estados Unidos | Direção: James Bridges | Roteiro: James Bridges, Aaron Latham | Elenco: John Travolta, Debra Winger, Scott Glenn, Madolyn Smith Osborne, Barry Corbin, Brooke Alderson, Cooper Huckabee, James Gammon, Jessie Mapes, Zetta Raney. Cindy Hall, Jarry Hall.
Distribuição: Paramount Pictures.



