A maior banda de heavy metal de todos os tempos merece um documentário grandioso, e Iron Maiden: Burning Ambition não poupa recursos. É uma produção da Universal Pictures dirigida pelo experiente Malcolm Venville, que recentemente fez a série documental Churchill em Guerra (2024).
A narrativa segue a tradicional ordem cronológica e começa situando o cenário musical e econômico de Londres no final dos anos 1970. Opondo-se ao punk, o Iron Maiden se destaca no circuito de pubs londrinos tocando composições próprias de heavy metal. O filme logo estabelece o baixista Steve Harris como o chefe da banda. Sua determinação de nunca tocar outro tipo de música e sempre adotar uma postura profissional foi a base para uma história que dura quase 50 anos. Essa integridade conquistou fãs leais – os primeiros deles aparecem em antigos registros do primeiro show da banda em 1980.
Alguns fãs de todo o mundo, entre eles um brasileiro, participam em depoimentos gravados para o documentário, em intervenções pontuais conforme o assunto. Um fã ilustre entra várias vezes no filme, o ator espanhol Javier Bardem, inclusive numa recitação dramatizada das letras da canção “Run to the Hills”. Ele evidencia a mensagem crítica ao extermínio dos povos originários americanos, provando assim que as composições do Iron Maiden não eram satanistas. Décadas depois, a onda de acusações nesse sentido a bandas de heavy metal soa ainda mais absurda e ridícula, como demonstra esse material.
Outros músicos também contribuem com depoimentos. Mas, sem exagerar na quantidade e na extensão de suas falas. Ganham a palavra Chuck D, Scott Ian, Tom Morello, Lar Ulrich e Gene Simmons, este último (o baixista e vocalista do Kiss) protagoniza um dos momentos mais divertidos do longa, ao dar um tchauzinho para o estilo grunge, que todos diziam que enterraria o heavy metal.
Eddie e outros integrantes
Os músicos do Iron Maiden, curiosamente, não são filmados para o documentário. Eles entram em áudios ou vídeos antigos, e registram apenas em áudio seus comentários exclusivos para esta produção. O motivo para isso não está explícito, mas pode ser depreendido do fato de eles serem tímidos em relação a promoção pessoal. É por isso que criaram o personagem Eddie (o monstro desenhado por Derek Riggs que estampa as capas dos álbuns) como representante da banda. Essa icônica figura, de fato, impulsionou a popularidade do grupo, ganhou versões concretas nos palcos e em animação computadorizada (que aparece em dose exagerada no filme).
O documentário tenta cobrir todos os eventos importantes da história do Iron Maiden. Mas, como são quase 50 anos, não pode se debruçar muito sobre cada um deles.
Algumas trocas de integrantes envolveram polêmicas. O guitarrista Dennis Stratton (que gravou o primeiro disco) não é mencionado. Já o vocalista Paul Di’Anno (1958-2024) admite em áudio que abusava do álcool e das drogas na época, como comprovam algumas imagens antigas, e que sua permanência prejudicaria a banda na visão profissional do líder Steve Harris. No seu lugar, entrou Bruce Dickinson, tão profissional e ambicioso quanto Harris, resultando numa química explosiva que levou a banda a cinco anos de sucesso absoluto, lotando estádios ao redor do mundo.
Dessa fase gloriosa, o filme destaca os shows na Polônia, chamados de “atrás da cortina de ferro”. O Iron Maiden foi um dos poucos artistas que se arriscaram a se apresentar no lado comunista do mundo, fazendo ainda questão de levar toda a parafernália habitual das suas produções ao vivo. Um dos trechos raros divertidíssimos ilustra a bizarra ocasião em que a banda tocou inesperadamente em uma festa de casamento polonês.
McBrain, Bailey, grunge
O baterista Clive Burr (1956-2013) ganha uma abordagem carinhosa no filme. Os membros o elogiam como músico, e não se menciona seus problemas com substâncias tóxicas. Nicko McBrain, seu substituto, além de ser mais talentoso, trouxe o ingrediente da amizade e do bom humor para o grupo. Seu último show, no Allianz Parque em São Paulo, em 2024, é um dos picos emocionais do documentário. Aliás, o Brasil entra no filme também com imagens do primeiro Rock In Rio (o maior público da banda até então e o famoso corte no supercílio de Dickinson) e do retorno no mesmo festival na turnê do “Brave New World”.
A saída de Dickinson, esgotado com as turnês de sucesso dos anos 1980, trouxe Blaze Baley como o frontman dos anos mais difíceis da banda. Os depoimentos de fãs, músicos e dos próprios integrantes claramente tentam ser respeitosos com o novo cantor, mas definitivamente ele não foi uma boa escolha. Numa das cenas raras (se não inéditas) do filme, ele e Steve Harris interrompem um show para brigar com um fã da plateia que cuspiu no rosto do baixista. No entanto, a análise dos depoentes sobre essa época conclui que foram anos difíceis para o heavy metal em geral, por conta do surgimento do grunge com seu estilo cru na música e na moda. Bailey aparece em entrevista da época e falando agora para o filme, sem demonstrar ressentimentos.
Sonhos infinitos
O retorno triunfal de Bruce Dickinson no ano 2000 com a ousada formação com três guitarristas (Adrian Smith retorna para se juntar ao seu substituto Janick Gers e o fundador Dave Murray), é o ponto inicial da terceira e sólida fase do Iron Maiden que dura até hoje. Desde 2012, Dickinson ganhou um destaque além do Iron Maiden, como palestrante em eventos corporativos. Mas, o filme procura não destacar individualmente seus membros, para manter a ideia da banda como um protagonista único. E se limita a contar sobre a vitoriosa batalha do cantor contra o câncer na garganta e sobre a realização de se tornar o piloto do avião do Iron Maiden nas turnês.
O título do documentário sugere uma abordagem da ambição (centrada notoriamente em Steve Harris e Bruce Dickinson) como a receita para o sucesso longevo do Iron Maiden. Porém, essa ideia fica apenas na sugestão mesmo. Iron Maiden: Burning Ambition segue os conselhos do cantor-palestrante e trata o público como fãs, e que pertencem a uma comunidade unida por uma paixão única. A última cena acena para o futuro ao trazer um vislumbre do show em 2025 em Wembley, já com o novo baterista Simon Dawson, marcando a turnê de comemoração de 50 anos, que inclui também o lançamento do livro “Iron Maiden – Infinite Dreams”.
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Ficha técnica:
Iron Maiden: Burning Ambition | 2026 | 106 min. | EUA, Reino Unido | Direção: Malcolm Venville | Roteiro: David Teague | Com Steve Harris, Bruce Dickinson, Nicko McBrain, Adrian Smith, Dave Murray, Janick Gers, Blaze Bayley, Rod Smallwood, Chuck D, Simon Gallup, Scott Ian, Tom Morello, Gene Simmons, Javier Bardem, Lars Ulrich.
Distribuição: Universal Pictures.






