O filme Era Uma Vez Minha Mãe tenta abarcar todos os eventos importantes da vida de Roland Perez, conforme ele contou em seu livro autobiográfico “Ma Mère, Dieu et Sylvie Vartan”. O extenso relato revela uma infância fora do comum, mas uma vida adulta que se destaca mais pela aproximação com a famosa cantora Sylvie Vartan.
Para o cinema, o que importa é como essa biografia se transforma em filme. Qualquer existência ordinária, com as alegrias e as tristezas de qualquer pessoa comum, pode virar um filme fenomenal se bem dirigido. No caso de Era Uma Vez Minha Mãe, o cineasta Ken Scott, em seu sétimo longa, adota um tom leve, com um toque de humor, e o protagonista conduzindo a narração como se estivesse escrevendo o seu livro. E mantém esse tom durante todo o filme, mesmo nos trechos mais dramáticos, que poderiam ser bem tristes, desprovendo a narrativa de qualquer dinâmica. Foi essa a sua intenção?
A cura
A história começa em 1963, em Paris, quando nasce Roland Perez, o sexto filho do casal de imigrantes marroquinos Esther (Leïla Bekhti) e Maklouf (Lionel Dray). O bebê veio ao mundo com um de seus pés torto. Os médicos indicam que o menino deve usar uma órtese, mas a mãe se recusa, pois não quer que o filho seja um deficiente pelo resto da vida. Prefere que Roland cresça se arrastando pela casa.
Com uma persistência que beira a irracionalidade, Esther recorre a todos os meios para curar o filho. Prestes a perder a guarda do filho (por não frequentar a escola), ela resolve seguir o método não-ortodoxo da esposa de um curandeiro. Nesse processo, Roland fica preso à cama durante um ano, todo amarrado. Para acalmá-lo, ele fica ouvindo as músicas de Sylvie Vartan, além de acompanhar a sua carreira na televisão, nos jornais e nas revistas. A insistência da mãe dá certo com essa receita. Roland anda pela primeira vez pela casa (ao som de “Get It On”, do T. Rex, uma estranha escolha para esse momento), e pode finalmente frequentar a escola.
Essa cura quase milagrosa é o maior acontecimento da vida de Roland. Pelo feito, Esther até recebe uma medalha de homenagem das mãos do presidente Chirac. O filme poderia ter focado nesse recorte para construir uma narrativa emocionante. Mas, o objetivo dos realizadores (e do autor Roland Perez ao escrever a sua autobiografia) não é este, e sim mostrar como a mãe foi obsessivamente protetora, chegando a prejudicar o filho, apesar das boas intenções.
Sem pausas para reflexões
Assim, a outra metade do filme acompanha a vida adulta de Roland. Sempre presente, Esther direciona todos os rumos do filho, tanto na carreira de Direito como no casamento com Litzie Gozlan (Joséphine Japy). E causa constrangimento porque ouve e não guarda os segredos confidenciais entre o filho advogado e seu cliente, e porque segura a mudança definitiva de Roland para morar com a esposa. E ainda pode arruinar seu contrato como advogado de Sylvie Vartan. O tom é sempre leve e com humor.
Os acontecimentos se sucedem, sem paradas para reflexões e nem para evocar as emoções, sejam elas de alegria ou tristeza. Talvez a mecanicidade desta narrativa expresse como Roland viveu a vida que a sua mãe quis para ele, sem nunca ter tido a oportunidade de pensar sobre o que ele próprio queria. Admitindo otimistamente que Ken Scott, roteirista e diretor, construiu o filme com esta intenção, a ideia funcionou.
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Ficha técnica:
Era Uma Vez Minha Mãe | Ma Mère, Dieu et Sylvie Vartan | 2025 | 102 minutos | França, Canadá | Direção: Ken Scott | Roteiro: Ken Scott | Elenco: Leïla Bekhti, Jonathan Cohen, Joséphine Japy, Sylvie Vartan, Jeanne Balibar, Lionel Dray, Anne Le Ny, Milo Machado-Graner.
Distribuição: California Filmes.



